Escrita #2: Dores de crescimento

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Ainda não sei se vou fazer disto um hábito, “isto” referindo-me à partilha dos textos que escrevo para o Escritadoria aqui no blog, mas por enquanto e enquanto me sentir bem ao fazê-lo, assim continuarei. 🙂
Quem segue a página de Facebook do Escritadoria já viu, mas para o restantes, o tema desta semana é…. dun dun dun DUNNNN: Medos.

Shall we? 🙂

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I

Os meus primeiros anos em Lisboa foram – no mínimo – tumultuosos. Não só estava a passar pelas mudanças típicas de fim de adolescência, como tentava habituar-me à nova vida que tinha, longe da segurança de casa e da família.

Aquela não era a minha casa. Não cheirava a casa, não tinha o toque de um lar ou a comida da mãe. Os lençóis não tinham as cores nem os padrões de que gostava. Pior, os lençóis não tinham nada. Eram brancos e pronto. Como na prisão.
Todas as semanas as senhoras da limpeza iam ao meu quarto trocar os lençóis e deixar um rolo de papel higiénico, lá está, como na prisão. Pronto, pelo menos da forma como imagino a prisão.
E exactamente como num encarceramento de longa duração, aprendi a aceitar o meu cativeiro.

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II

Dois anos passaram desde que aquela residência de estudantes se tornara a minha habitação. Sim, habitação. Continuava a não ser a minha casa, mas essa era – pelo menos – uma constante na minha vida. Tudo o resto se tornara ainda mais caótico, sem qualquer previsão de melhoria nos próximos tempos.

Agora estava já no terceiro ano de faculdade e tinha começado recentemente um estágio que sabia no meu âmago estar muito para além das minhas capacidades. Como convencera a directora daquela revista feminina a escolher-me a mim e não a uma recém-licenciada em Ciências da Comunicação continua a ser um mistério até aos dias de hoje. Claro que há sempre a hipótese de eu ter sido perfeitamente qualificada e a origem de todos os meus receios estar no meu eterno síndrome de fraude.

Naquela altura, o início da vida profissional fez de mim uma habitante diferente dos restantes numa residência a abarrotar de vida académica, de praxes, de festas, de pessoas criativas, barulhentas e livres.

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III

Numa das noites que escolhi para preparar um artigo para a revista no (des)conforto do meu quarto de presidiária, acompanhada como sempre pela minha banda sonora de bandas grunge dos anos 90, a minha solidão voluntária foi violada por notas soltas e desafinadas de uma guitarra eléctrica.
Ainda tentei resistir durante bastante tempo, sem sucesso. Se a minha concentração já não era forte, a restante foi brutalmente aniquilada por ele. Sim, “ele”, eu sabia perfeitamente de quem se tratava. Na altura ainda não tinha fixado o seu nome, mas era um rapaz que tinha entrado na residência nesse ano e que achava que era a próxima estrela rock do pedaço.

“Lol”, puto, dedica-te aos estudos que na música não vais longe.” – disse para mim, inconsciente da arrogância deste julgamento precoce.
Mas ele não parou. As notas soltas e atabalhoadas continuaram a subir as escadas do andar dele ao meu. Naquele momento, imaginei-me a ir bater à porta do quarto dele só para lhe dizer umas quantas verdades sobre a sua “música”. Porque na minha imaginação podia dizer-lhe tudo o que me viesse à cabeça.

“Tocas mal como o car%%$&.”
“Ah… isso era Nirvana? Ia jurar que era uma do João Pedro Pais.”
“Achas que eu tenho a tua vida? Eu tenho um estágio, percebes??”

Não era nada meiguinha na minha imaginação.

“Podes ao menos baixar o som um bocadinho?”

De tudo o que me lembro de ter pensado, tenho a certeza de que foi este último desejo que fez o “click” dentro de mim.

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IV

“Como assim baixar o som?! Estás parva, Catarina? Quem és tu?”

Foi aí que eu soube.
A minha ira era mal direccionada. Não estava zangada com ele, mas comigo. Dois anos antes, aquelas notas tímidas tinha sido minhas. Mal tocadas, sim, mas pertenciam-me a mim. Os sonhos, a liberdade de não me importar com que os outros pensavam pertenciam-me a mim. E agora estava ali, enfiada no quarto, a escrever um texto sobre pincéis de maquilhagem que tentava desesperadamente tornar mais engraçado/erudito com uma referência a Leonardo da Vinci, ideia essa que viria a descobrir mais tarde ter exactamente zero aceitação por parte da directora da revista, mas que – à parte disso – o artigo iria ser publicado na mesma, com as minhas palavras, mas com outro nome.

Descobri também nesse momento que a ira tinha chegado disfarçada de medo. Medo da rejeição, medo de não pertencer, medo de falhar. Acima de tudo, medo de crescer. No fundo, queria ser como ele. Não queria crescer já. Tinha medo.

E invejava-o tanto.

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Legenda da foto: o meu quarto na residência de estudantes durante o meu primeiro ano de faculdade (2005).

Bem, espero que tenham gostado. 😀

Será que já motivei alguém por aqui para se juntar ao Escritadoria? 🙂

3 Comments

  1. Alexandra Cardoso says:

    Só eu acho que a raiva deveria ter sido canalizada para a diretora? *roll*
    Novamente com uma escrita formidavel. 🙂
    Sorrisos,
    Alexandra

    http://thesweetest-life.blogspot.com

    1. joan of july says:

      Ahahaha. Na altura não foi, mas foi mais tarde. 😛
      Obrigada!

  2. Analog Girl says:

    Este está ainda melhor! E essa tomada de consciência… não é fácil perceber que estamos a crescer e queremos agarrar aquela capacidade de acreditar no impossível. Ahhhh! Andas a ir de encontro aos meus pensamentos intímos pá!

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