Lobos: os mitos, a perseguição e como podemos ajudar a preservá-los

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Apesar de existirem inúmeros animais mais exóticos por este mundo fora, nunca outro animal me fascinou tanto quanto o lobo.
Talvez seja a culpa dos contos de fadas, que ilustram este animal como sendo profundamente misterioso, solitário e de intenções duvidosas, algo que – se forem como eu que sempre me deixei atrair pelo ‘dark side‘ de todas as histórias – em muito contribui para esta atracção.

Mas, por outro lado, não é justa a forma como os populares contos de fadas tornam sempre o lobo no mau da fita. Lembram-se d’Os Três Porquinhos? Ou, ainda melhor, do Capuchinho Vermelho?
Existe uma explicação para esta representação do lobo nos contos infantis:

“O lobo, selvagem e destrutivo, significa as forças associais, inconscientes e devoradoras contra as quais temos de aprender a defender-nos, podendo derrotá-las pela força do nosso ego.”

“Mas o lobo não é só o sedutor masculino; representa também todas as tendências associais e animalescas que existem dentro de nós.”

– Bruno Bettelheim, Psicanálise dos Contos de Fadas

(Já agora, se gostarem desde tipo de desconstrução dos contos de fadas através da psicanálise, recomendo vivamente este livro do Bruno Bettelheim. Eu tenho-o e adoro-o.)

 

        

No fundo, isto explica porque é que o ser humano sempre perseguiu e caçou lobos, para além da razão óbvia de que estes são/eram predadores naturais de vários animais domesticados pelos homens ao longo da história, nomeadamente ovelhas, cabras, galinhas, coelhos, etc.

Mas esta perseguição violenta levada a cabo contra estes animais durante séculos, resultou numa trágica redução do seu número em todos os continentes. Falando da espécie lupina da Península Ibérica – o lobo ibérico (canis lupus signatus) -, hoje em dia consta que existem apenas 2000 indivíduos, 300 dos quais habitam o norte de Portugal, sendo que os restantes vivem em território espanhol, onde – infelizmente – a caça deste animal ainda é permitida.

Cá em Portugal, tal não é permitido e o lobo ibérico é considerado uma espécie protegida. O Centro de Recuperação do Lobo Ibérico é uma iniciativa que se dedica exclusivamente à protecção desta espécie, contendo alguns exemplares em cativeiro, numa área alargada que simula perfeitamente o habitat destes lobos.
Porém, precisa de todos os donativos que as pessoas possam dispensar para manter o centro. Eu visitei-o na semana passada e, para além disso, vou apadrinhar um lobo do centro. Estou super entusiasmada por me tornar madrinha de um lobo! 😀

Voltando ao fascínio pelos lobos, não sei se vos consigo explicar muito bem de onde ele vem. Não virá apenas dos contos infantis, garanto-vos. Já alguma vez olharam um lobo nos olhos? Acho que desta forma entenderiam.

Uma vez, quando tinha 14 anos, fui ao Jardim Zoológico de Lisboa com os meus pais (já não me lembro o que viemos fazer a Lisboa, mas aproveitámos para visitar o zoo) e vi um lobo, sozinho, no seu cercado. Estava extremamente perto da rede, por isso aproximei-me para o ver melhor. E ele não se moveu. Não fugiu nem se escondeu. Ficou ali onde estava a olhar para mim, sem fazer qualquer som, como se já me conhecesse. E eu fiquei ali, sem baixar o olhar, a devolver o cumprimento, olhos nos olhos.
Pode parecer parvinho, mas foi uma das experiências mais inesquecíveis que já tive.

Durante aqueles longos segundos parecia que me estava a deixar entrar no seu mundo e sentir toda a sua antiguidade e sabedoria.
E apaixonei-me ainda mais pela sua espécie.

Por isso mesmo, a preservação do lobo ibérico (e de qualquer tipo de lobo) é uma causa que me é muito próxima e pela qual lutarei como conseguir. Por agora, vou avançar com o meu apadrinhamento do lobo do CRLI.

E vocês, têm algum animal do coração? Existe alguma causa relacionada com animais que vos seja próxima? 🙂

Have you ever heard the wolf cry to the blue corn moon
Or asked the grinning bobcat why he grinned?
Can you sing with all the voices of the mountains?
Can you paint with all the colors of the wind?

– Pocahontas, Colors of the Wind

9 Comments

  1. Sofia Oliveira says:

    Não fazia ideia de que em Espanha é permitida a caça do Lobo Ibérico.. É muito triste.
    As fotografias estão maravilhosas, como sempre 🙂
    Que privilégio, poder apadrinhar e fotografar um animal e a sua essência fantástica.
    Apoio, totalmente, a tua causa! 🙂

    Beijinho**

  2. Sofia Oliveira says:

    PS: Fazem falta mais pessoas assim! *

    1. joan of july says:

      Sim, é verdade, contaram-me isso lá no Centro do Lobo Ibérico.

      E muito obrigada, querida Sofia! :D**

  3. Raquel says:

    Os lobos também sempre me atraíram (e as raposas). Adorei as fotografias e parabéns pelo apadrinhamento 🙂

    1. joan of july says:

      Também adoro raposas! 😀 Obrigada, querida. :*

  4. Analog Girl says:

    Nós devemos ser irmãs separadas à nascença. O lobo também foi sempre daqueles animais que me fascinou. Lembro-me que para além dos contos de fadas, n “O livro da Selva” é uma matilha de lobos que toma conta de Mowgli e há algo na calma com que eles enfrentam as ameaças que me atraía. Há muitos anos queria poder apadrinhar o lobo, guadei um recorte de uma revista com a informação necessária durante anos, quando pudesse, iria contribuir. O CRLI tem site?

    1. joan of july says:

      Também acho que sim, Joana. 😛 As coincidências andam a acumular-se!

      Por falar n’O Livro da Selva e nesses lobos, há n relatos de lobos que aceitaram crianças humanas entre eles (v. “feral children”) como se fossem parte da alcateia.

      Tem, Joana: http://lobo.fc.ul.pt/
      As adopções podem ser feitas online também. :D*

  5. Inês Silva says:

    Uma das minhas amigas mais próximas tem o mesmo fascínio que tu por isso fui estando atenta também a esta questão. Não quero mesmo viver num mundo em que o lobo ibérico se extinga :c

  6. O lobo que queria guardar ovelhas | CPR – A Reanimação da Escrita says:

    […] As fotos foram tiradas por mim e publicadas previamente neste artigo entitulado “Lobos: os mitos, a perseguição e como podemos ajudar a […]

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