Porque se despedem os Millennials? – as 7 principais razões e 3 casos reais

Posted on

Ultimamente tenho visto imensa gente à minha volta a despedir-se. Umas vão para sítios que acreditam oferecerem melhores condições, outras despedem-se sem outro plano imediato em vista. É um risco enorme e um que me assusta, mas fui tentar compreender as razões que estão a levar tantos Millennials à cessação de funções voluntária e o que se segue neste artigo foi o que aprendi nesta procura pela explicação do que leva alguém a despedir-se sem algo em vista.

Confesso que, em alguns casos, fui rápida a julgar. Pensei várias vezes que só quem está muito bem e financeiramente estável na vida é que se pode dar ao luxo de se despedir assim, “sem mais nem menos”. Bem, não deixa de ser um bocadinho verdade; para nos despedirmos sem outra fonte de rendimento estável no horizonte, temos que ter alguma estabilidade para fazermos frente aos tempos que se seguem, não? Neste momento, encontro-me numa fase em que consigo compreender perfeitamente o porquê de algumas pessoas se aventurarem desta forma, afinal se têm a segurança para o fazerem e se se encontram em situações – para elas – incomportáveis, então porque não? Há trabalhos que não compensam as horas que se perdem em deslocações, ou o mísero salário que recebem ou ainda a maioria dos nossos dias passados num ambiente que se tornou desagradável.

Estas são, assim rapidamente, algumas das razões que fazem os Millennials despedirem-se dos seus empregos, mas não são as únicas e – sinceramente – nem são as mais importantes.
O dinheiro é e sempre será importante no que diz respeito à escolha de um emprego, mas para esta geração não é o factor mais importante. Muitos Millennials preferem ganhar menos e trabalhar em empresas com as quais se identificam, do que o contrário.

As principais razões que levam os Millennials a despedirem-se

Fazendo parte desta geração, nem precisava de ter feito grande pesquisa e sei agora que podia listar todos estes motivos de cor, sem sequer pensar muito, mas toda a pesquisa que fiz ajudou-me a ter a certeza daquilo que já achava saber.
Entre as principais razões que nos levam a nós – Millennials – a desistir de ou a recusar um emprego, saliento as seguintes:

  1. o trabalho em si: é ajustado aos nossos conhecimentos? Permite-nos fazer uso das nossas capacidades intelectuais em pleno? É desafiante? Isto é muito importante para os Millennials;
  2. a cultura da empresa: vai de encontro aos nossos valores ou, pelo contrário, está completamente desalinhada com tudo aquilo que somos e em que acreditamos? Nenhum trabalho é suportável durante muito tempo enquanto assim é;
  3. o salário: é adequado? Sentimos que estamos a ser pagos por aquilo que realmente valemos? Quem é que consegue trabalhar anos a fio sentindo que não é pago justamente? Bem, esta característica não é – de todo – específica dos Millennials, não é verdade?
  4. aprendizagem: se um Millennial sentir que parou de aprender no emprego em que se encontra, tipicamente começa a procurar alternativas.
  5. sem perspectivas de crescimento: mesmo se ainda não tiver parado de aprender no emprego onde se encontra, se por outro lado começar a perceber que não tem espaço para crescer ou ascender de posto ou função dentro da empresa, o Millennial vai tentar aprender o máximo possível dentro da empresa, mas sempre com a decisão tomada de trocar de emprego assim que a aprendizagem chegar ao fim. Para um Millennial, estagnar no trabalho é morrer.
  6. a flexibilidade: não é um factor eliminatório se só houver uma oferta em cima da mesa, mas se tivermos que optar entre ofertas e uma delas nos permitir um estilo de vida dramaticamente mais flexível, então esta característica poderá ser privilegiada em detrimento até de um salário superior, dependendo da fase da vida em que nos encontramos e das prioridades que temos.
  7. equilíbrio vida-trabalho: o local de trabalho custa-nos horas em deslocações todos os dias? Perdemos tempo de qualidade com quem amamos e para os nossos hobbies por causa dessa deslocação? A longo prazo, uma longa ‘commute’ traduz-se numa drástica redução dos níveis de felicidade.*

* Dados do Happiness Research Institute retirados do like Lykke, de Meik Wiking

Das ciências exactas ao Marketing Digital

Algumas das pessoas que vejo a despedirem-se à minha volta não estão apenas a trocar de trabalho, mas a mudar de área completamente e, por vezes, para áreas muito distantes daquelas nas quais se formaram e iniciaram as suas carreiras.
O caso de maior sucesso – na minha óptica – foi o da minha amiga Catarina Costa, que estudou Biotecnologia e era investigadora no Instituto Superior Técnico há cerca de 10 anos, quando percebeu que não queria a) continuar a trabalhar na área e b) viver o resto da vida a temer não conseguir bolsa para o próximo ano.
Enquanto ainda estava no IST, a Catarina tirou uma pós-graduação em Marketing Digital – área pela qual se havia apaixonado – e, no ano seguinte, conseguiu um emprego como Social Media Manager numa agência de comunicação. Portanto, da Biotecnologia ao Marketing Digital; das ciências exactas para uma área criativa.

Mas a Catarina não está sozinha. Recentemente conheci a Filipa Maia que conta – agora – com um percurso semelhante ao da Catarina. Quando lhe perguntei o que a levou a deixar a sua já considerável carreira na indústria farmacêutica, a Filipa explicou-me o porquê de uma forma que não deixou qualquer dúvida quanto às suas motivações.

“Sempre fui uma pessoa com muitos interesses e interesses bastante variados. No entanto, enquanto crescia sempre tive uma tendência natural para as ciências exatas. Foi assim que cheguei à profissão de cientista, numa das minhas áreas de sonho, a indústria farmacêutica. Sentia-me perfeitamente realizada no meu trabalho e na minha profissão. Até ao dia em que tudo mudou […].
Tudo mudou à medida que me fui apercebendo de algumas coisas. Percebi que precisava de uma atividade criativa, algo que antes nunca me passou pela cabeça. Durante algum tempo fui tentando convencer-me que poderia ser criativa apenas “on the side” mantendo o meu emprego de cientista, mas outras coisas continuavam a mudar em mim.”

Foto: Nia Carvalho

Agora, com mais de 30 anos, continuava a ter muitos interesses mas também a saber que posso “ter jeito” para todos eles. Foi então que decidi parar e olhar para a minha vida e comecei a pensar naquilo que me faltava para ter a minha vida de sonho. Como já disse, senti que me faltavam formas de expressar a minha criatividade. Senti também que me faltava tempo: para mim, para aprender, para os meus projetos pessoais, para escrever os meus livros, para viajar mais.

Quero sempre aprender mais e mais e sinto a necessidade de ter tempo dedicado para aprender coisas novas. Porque hoje temos toda a informação nas pontas dos dedos, comecei a perceber que há pessoas que fazem a gestão do seu próprio tempo e que têm liberdade para viajarem e trabalharem a partir de qualquer lugar do mundo. Comecei a sentir que isso era também o que eu precisava para mim: controlo total sobre o meu tempo, liberdade para me deslocar pelo mundo podendo continuar a trabalhar, e a possibilidade de encontrar um maior equilíbrio na minha vida.

O meu trabalho não era, de todo, compatível com este estilo de vida. Mas sendo uma pessoa de muitos interesses e com vontade para aprender coisas novas, percebi que nada me estava a impedir de mudar e de ir atrás de realidades diferentes.

– Filipa Maia

Adoro o local onde trabalho, o tipo de desafios e, acima de tudo, as pessoas, e despedir-me foi provavelmente a coisa mais difícil que fiz em toda a minha vida. Mas acredito que só fui capaz de o fazer porque já me sentia plenamente realizada no sítio onde estava e com o trabalho que fazia, caso contrário, duvido que fosse capaz de partir para a aventura seguinte. É como se um ciclo de tivesse fechado.

Felizmente, tenho a sorte de me conseguir sustentar durante pelo menos um ano sem precisar de trabalhar. Foi por isso que decidi tirar algum tempo para mim e para explorar novas áreas que são do meu interesse: o meu ano sabático. Durante o próximo ano vou ter tempo para explorar e aprender várias coisas, muitas das quais passam pelo digital (como o marketing digital, por exemplo), outras nem tanto (por exemplo, quero muito aprender mais sobre psicologia positiva, um tema que me fascina), e ler muitos livros sobre os mais variados temas.”

Confessa ainda que, para além da almofada financeira que construiu para se poder despedir, conta também com “uma rede de apoio preciosa” que contribui para que tenha reunidas todas as condições para dar este salto.
Neste momento, a Filipa encontra-se a estudar Marketing Digital e a trabalhar por conta própria na área. Podem espreitar o seu site profissional e serviços em filipamaia.pt

Das Ciências do Desporto à função pública e… aonde a vida decidir levar a Margarida

Outro caso interessantíssimo que a vida se encarregou de cruzar no meu caminho foi o da Margarida Pestana que, tal como a FIlipa, conheci no contexto do Bloggers Camp, um projecto para bloggers que partilho com a Catarina Costa (a mesma da história anterior) e com a Ana Garcês, uma estudante de enfermagem e designer freelancer (quão Millennial é isto?).

Quando conheci a Margarida, disse-me que tinha um percurso que passava pelo desporto e que era apaixonada por Marketing Digital, portanto imaginem a minha surpresa quando me contou que trabalhava na função pública. Por vezes, a vida consegue levar-nos por caminhos bastante improváveis e até indesejados. Cabe-nos a nós reencaminharmos a nossa vida e carreira para onde desejamos. É isso que a Margarida está a fazer. Também a podemos seguir e ler os textos bonitos que escreve em margaridapestana.pt

Foto: Joana Clara

Tomei a decisão de me despedir porque não me revia em nada no trabalho que estava a fazer. […] Simplesmente não fazia algo que me preenchesse e percebi que nunca me iria apaixonar pelo que tinha em mãos. Nós, Millennials movemos-nos pela paixão, pela viagem, pelo desafio. E eu, não reunia estas condições no meu trabalho.

– Margarida Pestana

“Caí de pará-quedas naquela função sem perceber bem o que iria fazer e aos poucos fui começando a conhecer o que eram Licenciamentos de Espaço Público.
Ora, para quem sabe, eu comecei por tirar uma licenciatura em Ciências do Desporto e fui treinadora de ginástica acrobática durante 7 anos – qualquer pessoa percebia que eu tinha de me mexer, fazer qualquer coisa prática e mais criativa, mas a “pressão” de encontrar um bom emprego e de construir a tua independência é tão forte…

No dia em que decidi que me ia despedir, senti que não havia mais por onde fugir. Eu queria ser surpreendida, entusiasmar-me, levar-me ao limite, experimentar outras coisas, outros formatos. Não queria viver 20 anos iguais – como algumas pessoas que conheci no meu antigo trabalho – nem ficar sempre no mesmo registo.
… a vida é curta demais para fazeres algo que não te identifica ou ficares preso a uma série de compromissos que não te dizem nada. Há quem diga que é esse o problema da nossa geração, não sabemos lidar com compromissos, não sabemos ser fiéis. Não podia discordar mais. Acho é que somos cada vez mais exigentes com os compromissos que nos impõem, não vamos lá por “dá cá aquela palha”. E somos mais fiéis ao compromisso que fizemos connosco próprios. E isso é bom.”

Eu cá estarei a torcer por ela!

Conclusões

Ao contrário dos Baby Boomers (geração nascida entre 1946 e 1964, portanto, a geração dos nossos pais), os Millennials não querem ficar no mesmo emprego para sempre. Não conheço um único que me diga que quer ficar no mesmo sítio para sempre, independentemente do vencimento. Porém, a maioria dos Millennials não terá pressa em sair dos seus empregos se certos requisitos forem satisfeitos por parte dos empregadores. Mais que nunca, a nossa geração compreende que não tem que ser serva dos seus empregadores e que a relação de colaborador – chefe não pode ser unilateral. Se, por um lado, quem nos emprega nos dá uma oportunidade, por outro não estamos a fazer nenhum favor; não somos só nós a precisar das chefias; as chefias precisam de nós, dos nossos conhecimentos, das nossas ideias, da nossa ambição, tenacidade, inteligência e entrega, tal como precisamos que nos dêem as condições de que precisamos para as exercer com todo o prazer que deveríamos sentir no trabalho que executamos.

Espero que este artigo ajude quem possa estar a pensar despedir-se. Não digo que o devam fazer por impulso, mas quero que – pelo menos – não se sintam sozinhos nem incompreendidos se têm sentido vontade de abandonar um emprego onde até não ganham mal e não vos tratam propriamente mal. Por várias razões que já explorámos neste artigo, é perfeitamente normal!

Por outro lado, espero que este artigo seja lido por alguns empregadores e que possa contribuir para que haja um esforço maior por acomodar os Millennials nas empresas, não porque sejam “especiais”, mas porque as suas “exigências” nada mais são do que condições de trabalho que qualquer pessoa, de qualquer geração, deveria ter.

Para terminar, partilho um conselho que li num dos artigos que reuni para fazer a pesquisa para escrever este artigo:

“If the company treats you well and gives you room to grow your role, go for it! But if you are killing yourself working too hard at a place that sees you as a young kid and pays you accordingly, this is a huge waste of your time,” she said.

Vanessa McGrady

Mais artigos sobre este assunto:

New Survey: Three Main Reasons Why Millennials Quit Their Jobs
10 Reasons Millennials Quit Their Jobs
Answer These 7 Questions to See if You Should Quit Your Job
Why Millennials Have no Problem Quitting Their Jobs
 7 Signs it’s time to move on from a job

6 Comments

  1. Angela says:

    Nunca um artigo descreveu tão bem! Estou na geração millennials e sinto que não vou conseguir estar 20 anos sempre no mesmo emprego!
    Estou na área do Marketing Digital mas sinto que onde estou estagnei e preciso de mais!
    Obrigada pelo artigo, não me sinto sozinha!

  2. RITA says:

    Um dos meus artigos preferidos, super verdade e com excelentes exemplos 😉

  3. Andreia Moita says:

    Este texto está muito bom. Além de bem escrito, fala de uma coisa muito importante e sobre a qual eu perco muito tempo a pensar. Mais tempo a pensar do que a agir, na verdade. Textos destes precisam-se.
    Beijinhos

  4. Vânia Duarte says:

    este post está tão mas tão bom cat, desde a tua exposição sobre isto de ser millenial e querer encontrar um equilíbrio entre vida e trabalho até aos testemunhos da Margarida e da Filipa que são grandes exemplos de pessoas que realmente agiram com cabeça e não por modas. excelente texto.

  5. Xana Nunes says:

    Tomei conhecimento deste texto no fim-de-semana do Bloggers Camp e esteve-me aqui a fervilhar em 2º plano até hoje ter tido tempo de vir procurar por ele e dar-lhe a merecida atenção.
    Está excelente! Igualmente ao que a Andreia diz no comentário dela: definitivamente é um tema sobre o qual o meu pensamento se debruça todos os dias mas as acções… as acções ficam sempre por tomar.
    Acho que desculpo esta minha falta de acção com um forte “Babby boomer” que tenho la em casa – o meu pai. Sempre, mas SEMPRE me incutiu a cena de 1 emprego para a vida é que é bom (claro está, com as condições mínimas). Mas eu sei pensar pela minha cabeça de millenial e sei que isto dos empregos não é como o amor da Carolina Deslandes: para a vida toda. O que é para a vida toda é a realização pessoal. Ando à procura dela todos os dias. Qualquer dia despeço-me! <3

  6. Porque se despedem os Millennials? – as 7 principais razões e 3 casos reais – Catarina Alves de Sousa says:

    […] Artigo escrito para o meu blog Joan of July – artigo original […]

Leave a comment

Your email address will not be published.

CommentLuv badge