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Casa nova, capítulo novo

A última vez que mudei de casa foi em 2016. Na altura, documentei a mudança no blog, falei-vos dos meus mixed feelings em mudar de casa, mostrei-vos o antes, o durante e o depois e cada divisão da casa com a respectiva decoração. O plano era viver lá durante muitos anos com a pessoa com quem estava também há outros tantos, mas – como já sabem – a vida fez das suas jogadas mais imprevisíveis e o meu jogo mudou. 

E ainda bem que assim foi.

Sabem quando acham que a vossa vida vai ser de uma determinada forma para sempre, mas algo inesperado muda todo o rumo que já tinham antecipado para, pelo menos, os próximos vinte anos? Parece assustador, não parece? E é, mas também pode ser muito bom. Este abanão da vida que foi a minha separação e divórcio, fez-me descobrir coisas, conhecer pessoas incríveis (incluindo o meu namorado), repensar as minhas prioridades e reconquistar a minha independência perdida.

Eu, que já não vivia sozinha desde 2012, vi-me perante esta nova realidade/necessidade mal soube que me ia separar. Mentalmente, não estava nada preparada para abandonar aquela casa linda, espaçosa, cheia de luz, varandas e pormenores pensados e escolhidos por mim e que tão bem refletiam o meu gosto e personalidade, mas também sabia que não adiantava estar ou não preparada; tinha que sair dali e encontrar um espaço só meu.

Não foi fácil, admito; alugar um apartamento sozinha em Lisboa, para além de caro, é extremamente desafiante. Sabiam que, agora, quando vão visitar um apartamento em que podem estar interessados, vão vocês e umas 40 pessoas? Sim, estilo open house como nos filmes americanos…

Já não somos nós que escolhemos o apartamento: é o senhorio que escolhe o(s) inquilino(s) e, como podem imaginar, casais têm mais hipóteses de serem escolhidos do que uma rapariga sozinha com dois gatos e um vencimento mais baixo. É difícil competir com o vencimento de duas pessoas e com a sua taxa de esforço claramente inferior.

Após alguma procura e algumas visitas que não deram em nada, encontrei um apartamento perto do metro (GRANDE bonus!), T2, todo remodelado por dentro e com imenso potencial para ser a minha próxima casa. Senti que podia ser feliz ali.

Fiz a proposta, aceitaram-na, visitei o apartamento mais algumas vezes e veio uma pandemia que atrasou todos os meus planos de mudança, mas ontem – dia 25 de Abril de 2020 – mudei finalmente todas as minhas coisas para lá. Alguma mobília (não muita) e várias coisas que fui amealhando desde que vim para Lisboa, em 2005. São anos e anos de memórias e de vivências que aguardam agora novos lugares numa casa nova, também ela a aguardar a criação de novas memórias e vivências.

Mal posso esperar por enchê-la com os meus livros, os meus gatos, a minha decoração, o cheiro a bolos feitos por mim na minha nova cozinha e o riso dos meus amigos em jantaradas que pedem repetições. Mal posso esperar por receber lá a minha família e de fazer coisas que sempre quis fazer num apartamento só meu: dar asas à imaginação, pô-lo mesmo ao meu gosto, quiçá organizar eventos giros lá também… 

Para mim, o dia de ontem foi verdadeiramente o Dia da Liberdade. Não há mais pontas soltas, não há mais dependências e estranhezas em ter as coisas na casa do ex. Em breve vou ter a casa habitável (faltam coisas básicas como internet, gás e mudar os contratos para o meu nome), mas já sinto o alívio imediato de ter avançado para a próxima fase da minha vida.

A minha vida em caixas, sacos e caixotes a ir ao sítio aos pouquinhos. Como tudo o resto. 🙂

Sabiam que ontem foi o primeiro dia em que vi o meu novo apartamento com sol? Nos outros dias em que lá tinha ido o céu estava cinzento ou era de noite, mas ontem fui brindada por uma luz maravilhosa que eu nem sabia que ele tinha. E se, até aí, ainda me sentia meio estranha lá, ver o apartamento cheio das minhas coisas, fez-me sentir quase em casa. Agora é arrumar tudo, decorá-lo e inaugurá-lo com os meus amigos e noites de jogos e conversas fluídas como sempre gostámos de fazer.

Ali vou ser feliz. Eu sei-o.

Eu sei que as memórias e as histórias se constroem, mas cada sítio por onde passamos tem as suas. Não podemos incutir memórias reproduzidas de uns sítios para os outros. Não é assim que funciona. E abandonar um sítio significa deixar para trás os cantos que evocam certas memórias. A partir do momento que ficam para trás, teremos verdadeiramente de nos lembrar delas, pois já não existirão os riscos, paredes, amolgadelas próprios da casa que nos vão lembrar delas.

Sobre mudar de casa, neste post sobre “mixed feelings” associados às mudanças

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