A breve história de quando achei que ia ser saboeira na Escócia

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Há uma história minha que nunca partilhei aqui. Não é que partilhe todas, como podem imaginar, mas costumo partilhar várias histórias do meu percurso laboral, se bem se lembram (vejam algumas aqui!). Não é que haja algo de espectacular sobre ela, mas é daquelas coisas que tem graça lembrar e – se me conhecem na vida real – vão dizer que isto “é tão Catarina” porque mais ninguém faz isto.

Então, corria o ano de 2012 quando eu terminei o meu estágio profissional no projecto MediaLab do Diário de Notícias e fiquei desempregada. Ora, em plena crise, foi-me super difícil voltar a encontrar emprego e passou-se um ano e um mês até que o conseguisse.

Durante esse tempo explorei várias opções, fiz várias candidaturas até a áreas nada a ver com a minha, criei um negócio de sabonetes artesanais com a minha tia (NatusPurus) e mantive-me ocupada a criar sabão natural e sabonetes artesanais do zero, a trabalhar no online marketing do negócio, a ir aos fornecedores, a ir a feiras de artesanato vender, a embalar e enviar encomendas por correio, a ir conhecer possíveis parceiros com lojas onde chegámos a vender os produtos, etc. Ao mesmo tempo ia enviando candidaturas de emprego, claro, mas nunca cruzei os braços e fui ganhando algum dinheiro com os sabonetes.

No final de 2012 tive, então, uma nova ideia. O ano aproximava-se do final e lembro-me de estar com a minha mãe, no Porto, no Continente do Dolce Vita, quando comprei uma Lux Woman com a Blake Lively na capa. Inexplicavelmente, abri-a logo na secção dos horóscopos e, não sendo crente, naquela fase agarrar-me-ia a qualquer coisa que passasse por sinal do Universo. Ora, então, o horóscopo de Caranguejo para o início de 2013 dava como certo que eu e todos os meus fellow cancerianos teríamos uma experiência fora do país que iria mudar a nossa vida.

O que fiz eu?

Eu podia fazer uma mini-lista de possibilidades entre a), b), c) e até d) e mais, que vocês não iam acertar.
Primeiro, vou contextualizar: eu nunca fiz Erasmus, ao contrário de quase todos os meus amigos e colegas de faculdade e, aos vinte e cinco anos e já com uma licenciatura e um mestrado terminados, essa experiência estava fora das cartas para mim. Mas… havia outro. Outro programa para “ir para fora”. Leonardo da Vinci. Ouvira falar dele várias vezes e um amiga minha chegou a fazer um estágio em Itália ao abrigo deste programa. É certo que correu mal e que ela teve que vir embora mais cedo, mas isso não quer dizer que me acontecesse o mesmo.

Normalmente é feita uma inscrição no programa e a faculdade já costuma ter uma lista de entidades de acolhimento em vários países europeus da qual podemos escolher e candidatar-nos, mas nãaaooo, isso seria demasiado normal para mim.

Neste ponto da minha fantasia em ir trabalhar para o estrangeiro, eu só me imaginava a fazer uma coisa: sabonetes na Escócia.

Yep. Isso mesmo. Não me lembro como é que cheguei a essa encantadora conclusão, mas meti na cabeça que essa era a única coisa que eu queria fazer caso entrasse para o programa Leonardo da Vinci. Então, nem sequer me candidatei ao programa nem contactei a faculdade. Não. Eu pesquisei por várias empresas soapmakers na Escócia e vi uma que me encantou. Vi que era em Edimburgo e isso era ainda melhor, pois há voos directos e seria mais fácil para vir a Portugal de visita. Ainda pensei numa de Inverness, que era uma ideia mais romântica, mas mais difícil de concretizar.

(Aquela vez que fomos à RTP Internacional… e também chegámos a ir à SIC!)

Agora, spoiler alert: nada aconteceu, pessoal, lamento estragar-vos a história. Eu contactei essa empresa de Edimburgo; arranjei um contacto directo da pessoal responsável e enviei-me um email maravilhoso a contar a minha história, a contar que criei, com a minha tia, um negócio de sabonetes caseiros e artesanais do nada e que adoraria fazer um estágio naquela empresa ao abrigo do programa Leonardo da Vinci.

Nada aconteceu, nunca obtive resposta, sim, tentei várias vezes e para outros endereços de email.

Por vezes ainda vou ao meu email olhar para esse que eu enviei, tão nova e ingénua, cheia de sonhos talvez meio infantis e nem sinto uma ponta de vergonha ou de arrependimento. Com isto, aprendi três coisas:

  1. que eu tento fazer com que as coisas aconteçam, mesmo tendo medos;
  2. que eu não queria assim tanto trabalhar fora do país; não foi a perspectiva de ser fora do país que me aliciava* , mas sim a possibilidade de aprender mais sobre o fabrico de sabão com quem era mestre. Na altura, era o que mais prazer me dava fazer e estava a adorar o rumo que este meu hobby estava a tomar;
  3.  que não quero deixar de ser a pessoa que era há cinco anos. É certo que em cinco anos muita coisa muda em nós, mas por mais voltas que a vida dê, não quero perder a capacidade de sonhar e não quero, a qualquer ideia mais peregrina, exclamar instantaneamente “isso nunca irá funcionar!” sem antes experimentar.

* Não é que os escoceses sejam os melhores saboeiros do mundo (eu, pelo menos, desconheço esse mito), mas eu queria era ir à Escócia por ser um país que sempre me fascinou, mas esse desejo concretizei em 2015. Ao menos isso. 🙂

E pronto, era isto que tinha para partilhar com vocês hoje. Não fico triste por não ter acontecido, porque de alguma forma eu estava onde, afinal, tinha mesmo que estar e a minha vida só é como é hoje em dia porque o rumo dela foi o que foi, sem ser interrompido por uma experiência a trabalhar no estrangeiro. Isso teria dado aso a um rumo diferente, de certeza absoluta, e eu estou contente com a forma como os eventos se desenrolaram até agora.

Mas olho com carinho para trás por sequer me ter lembrado de enviar aqueles emails e por me ter imaginado a fazer sabão na Escócia como opção de carreira. Porém, o que desejo realmente é não perder essa minha espontaneidade e capacidade de sonhar e de não abafar ideias (ainda que estranhas) logo à nascença.

E vocês, alguma vez tiveram uma ideia deste género? Ou tiveram a experiência do programa Leonardo da Vinci? 🙂

1 Comments

  1. Alexandre Bessa says:

    Adorei a mensagem passada por este texto. O melhor de tudo é que foi escrita de forma simples. Parabéns por usa iniciativa e por ser destemida. Abraços!

    Ah, a propósito, escrevo algumas coisas que lhe podem ser úteis, se quiser dar uma olhada. Acabei de iniciar meu blog. 🙂

    https://psicossoma.com.br

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