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#viveatuabeleza – a minha história

Na semana passada, a Helena do The Styland lançou um projecto maravilhoso chamado #viveatuabeleza. Como o próprio nome indica, o #viveatuabeleza pretende encorajar todas as mulheres a aceitar quem e como são, porque a perfeição não existe e devemos amar-nos incondicionalmente. Sim, até mesmo às nossas imperfeições.
Se ja viram o site do projecto, devem ter reparado num separador que diz “Histórias Reais” que incentiva qualquer  mulher a partilhar a sua história, tal como o fizeram as oito embaixadoras desta iniciativa.

Podem encontrar lá a minha história, mas achei que devia deixá-la também aqui para o caso de a quererem ler na íntegra. 🙂

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Em Setembro deste ano fez 9 anos que me submeti a uma mamoplastia redutora. Tinha 19 anos e fui para a cirurgia com um misto de entusiasmo e de receio de continuar a não gostar do meu corpo com o peito reduzido, apesar de ser algo que desejava há muitos anos.

É que, ao contrário das meninas que durante a adolescência sonhavam com maminhas maiores, eu invejava-as precisamente por não as terem.
Não é divertido parecer-se mulher quando ainda se pensa e se sente como uma criança, não é confortável correr nem fazer desporto e as aulas de educação física estão cheias de colegas do sexo masculino com as hormonas aos saltos. Quando tens corpo de mulher antes do tempo és assediada a torto e a direito, até por homens muito mais velhos que tu a quem, apesar de pareceres também mais velha, não interes sa que não o sejas, até porque nem te olham para o rosto ainda infantil. Não te sentes segura e sentes-te completamente envergonhada e humilhada. Eu, pelo menos, senti e durante vários anos.

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Sei que, comparativamente a outros problemas de saúde que muita gente enfrenta pode não parecer nada de especial, mas foi algo que enfraqueceu gravemente a minha auto-estima. Claro que o facto de simplesmente não existirem soutiens giros (= sem se destinarem a mulheres maduras) também não ajudou nada. Sabem aqueles soutiens fofinhos que as meninas com copas A e B encontram facilmente a Oysho, Women’s Secret, Tezenis, etc.? Nope, não havia nada disso. Hoje em dia, já é diferente e já vão existindo opções bonitas para peitos maiores e até já vai sendo normal aparecerem umas copas C e D (na loucura) nestas lojas que mencionei.

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Sim, não parece nada de especial a quem está de fora, mas e se, por um momento, se imaginassem constantemente fora da vossa pele? Se praticamente todos os dias não se sentissem vocês mesmos porque não se sentem livres, porque têm que se restringir a roupas (interiores ou não) em que têm a sorte de caber, porque não podem usar tops giros e decotados como as vossas amigas que têm peitos de tamanho “normal”? Só quem passou por isto é que sabe o que é não poder sequer comprar um top ou vestido que tenha algum tipo de recorte abaixo do peito porque, em 99,8% das vezes, o vosso peito ia parecer:

a) esmagado;
b) cortado a meio pelas costuras do decote do top ou da camisola.

Hoje em dia, tanto tempo depois da operação, tenho que fazer um esforço mental para me lembrar de como era a vida antes, mas sempre que o faço penso em como teria sido na altura se eu soubesse o que sei hoje. Teria feito um esforço maior para me aceitar como era? Se a sociedade com as suas normas de beleza impostas e as pessoas à minha volta não tivessem sido tão cruéis, será que o tamanho do meu peito teria sido assim tão problemático?

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Não sei nem nunca saberei. Mas suspeito que não. É por isso que me sinto tão feliz sempre que vejo uma iniciativa ou projecto que assenta no mesmo propósito do “Vive a Tua Beleza”. A mim nunca me incentivaram a ser feliz como era e com o que tinha. Sempre me foi dito que tinha que mudar algo para “encaixar”, para ser feliz e gostar do meu reflexo. Mas não tem que ser assim, muito menos agora, que a nossa geração começa a ter consciência de que são os pequenos (ou grandes) defeitos que nos tornam mais bonitas, mais fortes e únicas. Agora está na altura de aplicarmos a teoria não só a nós mesmas, mas às gerações futuras.

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E pronto. Ao lerem esta história, já me conhecem melhor. 🙂
Espero que tenham gostado e que, de alguma forma, tenha ajudado alguém.

Já agora, não podia deixar de recomendar que leiam as restantes histórias reais, bem como as das embaixadoras do #viveatuabeleza. Ah, e não deixem de partilhar a vossa! Enviem-lhes um email. Podem não achar que têm uma grande história, mas olhem que a vossa experiência pode vir a inspirar muitas raparigas por esse país fora.

Já conheciam este projecto?

6 Comments

  • Joana Sousa

    Já ando há uns dias a começar a “ganhar coragem” para escrever, mas confesso que ao ler as vossas histórias, sinto que até nem tive tanto “azar” com o que me calhou na rifa durante a adolescência. É preciso coragem para assumir a decisão de alterar o nosso corpo – e se te fez bem, tanto a nível físico como psicológico, óptimo! Mas a sociedade tem mesmo que começar a filtrar e a compreender que a mulher é mais do que um objecto sexual. E é MUITO importante transmitirmos essa mensagem às adolescentes – no teu caso, e também em alguns que conheci pessoalmente, a sexualização por teres o peito grande. Noutros, como no meu, o rebaixamento e o “tu não és uma rapariga!” por teres o peito pequeno. É porque tens a anca larga, ou estreita. É porque tens rabo, ou porque não tens. É porque tens pelo a mais. É porque tens gordura a mais. E quem tu és na realidade, fica em segundo plano…

    Desculpa o desabafo ahah :p isto diz-me muito! <3

    Jiji

    • joan of july

      Não há histórias mais fracas que outras, Joana! Cada pessoa tem a sua e, para si, pode bem ser o maior problema do Mundo ainda que existam outras pessoas a sofrer de problemas (supostamente) piores. O que nos acontece a nós marca-nos mais, é normal. 🙂 Acho que, se sentes vontade de partilhar a tua história, devias! Eu não sei qual é, mas era bem capaz de ajudar muita gente com os seus próprios ‘issues’.

      E concordo contigo. Connosco – mulheres – é sempre assim, nunca estamos “bem” para os outros. Podemos ter a mais ou a menos, mas quando estamos a crescer parece que ninguém nos acha “normais”, como se tivessem que dar aprovação por alguma coisa ou como se pudéssemos fazer alguma coisa para mudar…
      Enfim.

      Espero mesmo (e se depender de mim assim vai ser) que as próximas gerações de mulheres não tenham que lidar com tanta ignorância, falta de sensibilidade e civismo e com uma sociedade que só aceita um tipo de corpo. Como disse no texto, acredito que isso está a mudar, só tenho pena de não ter crescido com a mentalidade que parece estar a formar-se. 🙂

      Beijinho!*

  • Ana Patrícia

    Bem, há uns meses atrás escrevi um post sobre esta temática no meu blog… Tive mesmo de cortar e repensar as palavras porque ficou tão pessoal que ponderei muitas vezes não ser boa ideia publicar.
    Não posso dizer que sei o que sentes porque na minha adolescência, o meu peito era quase ‘inexistente’. Mas devo partilhar que, como alguém que já esteve nos dois lado, é muito pior ter o peito demasiado pequeno do que grande.
    Não vou negar que irrita teres de desembolsar uns 50 euros para um soutien adequado, soutien esse que nem há em lojas comuns (copa D não é assim tão grande cara Intimissimi e companhia!) e consegue ser ainda mais irritante seres conhecida como ‘a miúda das mamas grandes’, como se fosse isso a única coisa que temos!
    Mas acredita que é bem pior olhares-te ao espelho e perguntares-te porque é que o teu corpo não é como uma ‘mulher a sério’. Hoje em dia, tenho o peito grande (demasiado em proporção até), mas sinto-me muito melhor na minha pele do que me sentia na adolescência! Nem há comparação possível…
    Mas tal como também dizes, se passasse pelo que passei neste momento da minha vida, provavelmente não dava a mesma importância porque aprendi a gostar de mim pelo que sou e não pela imagem que tenho! E isso é o mais importante! 🙂
    (desculpa o testamento :p)
    xoxo, Ana

    The Insomniac Owl Blog

    • joan of july

      Olá Ana,

      Obrigada por partilhares um bocadinho da tua história aqui. 🙂
      Gostei muito de saber que aprendeste a gostar de ti pelo que és e não pela imagem que tens. Hoje em dia também posso dizer o mesmo. 🙂
      Mas quando aos soutiens caros para tamanhos grandes, hoje em dia já não tem que ser assim (felizmente!), mas confesso que naquela altura isso nem chegava a ser um problema. E não estamos a falar de um peito simplesmente grande e ligeiramente incómodo, mas sim de algo que trouxe outros problemas por acréscimo, nomeadamente na coluna. Não mencionei no texto, mas fiz a operação em grande parte comparticipada pelo seguro de saúde porque fiz vários testes médicos (raio-x à coluna, testes psicológicos, etc.) para provar que não se tratava de uma intervenção meramente cosmética.

      Espero ter ajudado a esclarecer um bocadinho os meus motivos. 🙂

      Beijinho grande*

      • Ana Patrícia

        Entendo perfeitamente o teu lado. Tenho uma pessoa muito próxima que passou pelo mesmo problema de um peito grande lhe ter acarretado problemas na coluna. E imagino que isso não seja nada fácil! Nunca em momento algum foi meu objectivo ‘diminuir’ o problema pelo qual passaste, não me interpretes mal 🙂

        Já agora, onde consegues arranjar soutiens de tamanhos grandes a preços mais acessíveis? Isso é sempre uma dor de cabeça para mim, volta e meia lá ando eu a procurar lojas onde possa poupar um pouco :p

        beijinhos

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