Como fazer o luto e começar a recuperação emocional após a perda de um animal

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Demorei muito a escrever este post e demorei também muito a perceber se o queria escrever ou não, mas depois deste em que vos expliquei o que aconteceu com a Zelda, achei que este seria útil a quem está a passar pelo mesmo, porque cheguei à conclusão de que simplesmente não se fala sobre luto. Também cheguei à conclusão de que a nossa sociedade não vê com bons olhos o luto de quem perdeu um animal-família nem tampouco está preparada para essas situações. Enquanto lidei com a perda da minha amiga, decidi também tirar uns dias de férias para lidar com os meus sentimentos e com o ajuste a uma vida… diferente, sem ela. Deixem que vos explique porque é que decidi fazê-lo. Prometo não tornar este post num relato demasiado deprimente.

Em primeiro lugar (e para tirar a parte mais triste do caminho), vou confessar-vos que passei mais de uma semana a chorar todos os dias, desde o dia em que a deixámos no Hospital Veterinário internada até dias depois da Zelda partir. A meio da semana em que ela esteve internada já eu tinha perdido a esperança, mas não quis comentar com o meu namorado, pois ele é sempre muito mais optimista do que eu e eu não queria retirar-lhe a pouca esperança que ele tinha. Mas eu chorei todos os dias e a meio da semana já chorava de uma forma diferente… como se não tivesse muitos mais dias de Zelda, mesmo que não pensasse nisso de uma forma muito consciente.

Essa semana foi terrível, não só pela dor de a ter doente e longe de nós (embora a visitássemos todos os dias), mas porque estivemos muito preocupados também com o Loki, o nosso amarelinho que tanto amava a sua “irmã” mais velha. Tentámos por tudo dar-lhe o máximo de atenção e mimo para que ele não sentisse tanto a falta dela. Ele, sendo a fofura que é, adormeceu TODOS os dias dessa semana dentro dos lençois, na nossa cama, abraçadinho a nós a ronronar. Só assim consegui adormecer, apesar de dormir mal todos os dias.

Enquanto dormia ao menos era feliz. O problema é que, quando acordava, sentia uma chapada na cara da realidade, pois assim que acordava a sério lembrava-me na realidade e a dor profunda e o nó na barriga voltavam. A minha dor psicológica quando é profunda passa também a física, não sei se acontece o mesmo convosco.

Ajustar-me a uma vida diferente…

Como já vos contei cronologicamente o que se passou, vou omitir certos detalhes e passar à frente até à primeira manhã depois da Zelda partir.

Se na madrugada em que nos ligaram a dizer que a nossa menina tinha falecido chovia imenso e de uma forma triste, na manhã seguinte o sol nasceu resplandecente e de um tom renovador. Parecia mesmo que estávamos dentro de um filme em que o sol surge no dia seguinte a simbolizar um novo início. De certa forma era, mas a dor era muito fresca. Ainda a imaginava nos seus sítios favoritos lá em casa: em cima da box da NOS, no armário das toalhas, escondida, na nossa cama, no sofá grande, na cadeira do escritório onde apanhava banhos de sol pela tarde dentro, na varanda onde gostava de ir ver os pássaros e as plantas… Nada parecia o mesmo sem ela. A casa parecia até vazia sem ela, acreditam? Não sei explicar nem pôr por palavras o quanto… Estávamos todos tão tristes…

Nesse primeiro dia, coloquei o telemóvel em modo voo. Não queria nem conseguia falar ao telefone sem desatar a chorar, então enviei mensagens e sms a quem sabia o que a Zelda estava a passar e que estava internada a informar. De alguma forma, essas pessoas ajudaram-me com as suas palavras de amor e apoio. Nesse dia pedi também dois dias de férias do trabalho: segunda e terça.

Férias para fazer o luto?

Sabem que têm direito a faltas justificadas do trabalho quando uma pessoa da vossa família morre, certo? E isso está correcto. Quem é que consegue voltar ao trabalho depois de alguém próximo falecer? É preciso tempo para chorar, para abraçar os nossos que também choram a mesma perda, para relembrar a vida da pessoa e nos ajustarmos a uma nova realidade sem ela.

Mas… e no caso dos nossos animais de estimação? Não há nada. Nada que diga que podemos tirar pelo menos um dia para chorarmos a perda. Nada de nada. Na nossa sociedade parece que se acha meio parvo sermos tão apegados a animais, mais eu não estive minimamente preocupada com isto. Tirei dias de férias, que se lixe. Precisava deles.

Há quem diga que é estranho sofrer desta forma pela morte de um animal de estimação, mas eu nem contra-argumento com essas pessoas porque simplesmente não vale a pena. Claramente nunca sentiram este amor por um animal nem um animal o sentiu por elas. E tudo bem também, mas realmente não têm qualquer base empírica para compreender aquilo por que passei e com que ainda estou a lidar. Só peço que não julguem.

Na verdade, a única coisa que posso dizer é que choro mais a perda da Zelda do que a perda de algumas pessoas. Não é que não goste delas, mas não são tão próxima de certas pessoas como o sou dos meus filhos felpudos. Há ainda atenuante de que quando algumas pessoas da nossa família morrem, já eram velhinhas e/ou doentes. Se isso nos impede de sofrer? Não, mas de certa forma já estamos (mais) preparados mentalmente para uma eventual perda.

Já não me lembrava da vida sem ela…

A Zelda não tinha ainda sequer 8 anos era aparentemente saudável, mesmo depois de descobrirmos aquele nódulo pequenino na mama no final do ano passado. Até ao dia 23 de Janeiro ela era uma gata vivaça, brincalhona, amorosa e com uma personalidade enorme…

Eu vivia com ela desde 2010. Já vivemos as duas sozinhas, mudámo-nos as duas para uma casa com o meu namorado e vivemos muita coisa juntas. Quando morávamos com amigas e pessoas estrangeiras, a Zelda conheceu imensa gente, fartou-se de levar mimos, de assistir a festas de Erasmus, festas temáticas polacas, reuniões de americanos, holandeses, etc. Depois, em 2012, começou uma parte da nossa vida mais calminha e familiar com o dono, a dona e um Loki bebé.

Ela assistiu ao início da minha carreira profissional, aos meus desgostos laborais e às minhas tentativas de conciliar as minhas muitas horas fora de casa com tempo de qualidade para nós as duas. Foram muitos filmes e séries que vimos agarradinhas, muitas dentadas que levei porque ela, apesar de fofa, tinha um feitio por vezes difícil… Mas caramba, eu amava-a assim e, de certa forma, ela era eu em versão felina.

Foram quase oito anos juntas. Eu já nem me lembrava bem de como era a vida sem a Zelda. Ainda me estou a tentar habituar. Estamos os três.

Os dias de luto saudável

Voltando ao tema principal deste post: os meus dias de férias para fazer o luto da Zelda.

Há quem prefira voltar ao trabalho imediatamente após uma tragédia, enterrando os seus sentimentos mais tristes e obscuros em montanhas de trabalho. Eu compreendo; trabalhar muito é uma forma de anestesiar coisas menos positivas que possamos sentir, mas sabem o que acho? Que é também uma forma de estarmos a adiar o inevitável: lidar com a nossa dor. Podemos ser bem-sucedidos a adiar essa dor por dias, semanas, quiçá meses, mas um dia ela vai voltar, forte como se tudo se tivesse passado ontem, e aí vamos inevitavelmente ter que lidar com ela.

Não se apagam sentimentos destes, nem se camuflam e não, não vão desaparecer. Eu podia ter voltado logo ao trabalho, mas sabia que não estava emocionalmente estável e tenho algum pavor de chorar em frente às pessoas, tenho que confessar. Não me ia sentir bem em fazê-lo no meu ambiente de trabalho.

Eu sabia que os primeiros dias da semana iam ser de muita tristeza e adaptação, por isso decidi ficar em casa para trabalhar em mim, chorar quando necessário, pensar nela, honrar a sua vida e também tentar fazer com que os dias do Loki fossem mais felizes com a dona lá em casa. Estava cheia de medo que ele deprimisse, porque os gatos também têm depressões, não sei se sabiam.

Então, em típico jeito de Catarina, tracei um plano para estes dois primeiros dias da semana; não muito rígido, mas contemplando pelo menos uma coisa boa por dia que implicasse acção.

Dia 1 – segunda-feira

  • Ligar à Câmara Municipal e agendar a recolha do nosso colchão antigo que está a ocupar imenso espaço no quarto-arrecadação –> intenção: destralhar, criar espaço, livrar-nos de algo que já não tem utilidade para nós;
  • Lavar a transportadora e a manta da Zelda que foi com ela para o vet: apagar os aromas de uma fase negativa. Conservámos o brinquedo favorito dela com o cheirinho dela, antes de tudo acontecer;
  • Fazer várias tarefas em casa para repor a ordem. Pedi à empregada para não ir nesse dia –> desempenhar estas tarefas de limpar, destralhar, cozinhar coisas boas e pôr a casa em ordem é a minha forma de sentir que tenho controlo sobre algo. Não preciso de um life coach para me dizer isso. Ao contrário da situação da Zelda na qual senti que não podia fazer nada, em casa pelo menos controlo tudo ou praticamente tudo;
  • Retirar as plantas secas/mortas dos vasos da varanda e preparar a terra para novas plantas;
  • Ir ao Horto do Campo Grande comprar novas plantas.

 Dia 2 – terça-feira

  • Ler muito, desanuviar a cabeça, não prestar muita atenção às redes sociais;
  • Ir dar uma caminhada à Quinta das Conchas, caminhar entre as árvores e sentir os cheiros da natureza;
  • Aproveitar para destralhar mais um bocadinho e levar livros “esquecidos” na estante para a Little Free Library da Quinta das Conchas.

Portanto, foram pequenos passos, mas todos positivos que me ajudaram a sentir um bocadinho melhor. Dar atenção e recebê-la de volta por parte do Loki também foi uma grande parte destes dias e tem sido assim sempre. Para nós só passou uma semana desde que a Zelda partiu, mas para ele passaram-se duas, a contar com aquela semana em que ela esteve internada e que ele não a viu.

Quarta-feira já voltei ao trabalho e a vida continua, não que eu tenha escolha nesse sentido. Em resumo, sinto mesmo que tomei a decisão certa para mim e para nós ao ficar em casa aqueles dois dias. Hoje em dia tudo acontece tão rápido e tudo se ultrapassa tão rápido que me faz alguma impressão… Naqueles dois dias tudo passou com uma certa calma e serenidade. A dor foi sentida, compreendida e aceite. Ainda está a ser e assim o será para sempre. Nunca haverá um dia em que não sintamos a falta da Zelda, mas infelizmente não nos resta fazer mais nada senão aceitar e sarar as feridas em família e com muito amor.

Sabermos que a amamos até ao infinito (passado, presente e futuro) e que fizemos literalmente tudo o que poderíamos ter feito por ela e que ela nos amou tanto em retorno vai ter que chegar.

E vocês, já passaram por uma perda deste género? Como é que lidaram com a situação?

6 Comments

  1. Sofia says:

    Olá Catarina! Já sofri duas grandes perdas, uma há 11 anos e outra há ano e meio. Tanto o Bobi como o Patanisca eram já cães seniores e com problemas sérios de saúde, mas foi uma sensação de perda terrível. Durante meses após a morte deles, ainda ouvia as patinhas deles pela casa fora e entendi que teria de passar por esse luto até voltar a adoptar outro cão.
    Quando o tempo passa e a dor acalma, quando conseguimos voltar a falar com uma imensa alegria deles, lembrar as expressões que faziam e sorrir com essa lembrança, então estamos preparados para voltar a amar incondicionalmente outro patudo. Quando o Patanisca morreu já tinha a Mia, uma gatinha que aforava o “mano msus velho” e que eu julguei que fosse sofrer mais do que eu com a ausência dele…mas eles adaptam-se melhor do que nós à mudança!
    Vais ver que só o tempo ajuda…eu fui trabalhar logo no dia seguinte e não foi fácil, mas acho que as rotinas ajudam…Mas cada pessoa é diferente por isso acho que não há verdades absolutas!
    Um beijinho e muita força!

  2. Célia says:

    Olá Catarina,
    como compreendo tudo o que diz em relação à perda de uma amiga, com 45 anos já conto com várias perdas dessas, todas irreparáveis, todas dolorosas, mas ao mesmo tempo todas elas valeram a pena pelo tempo que passei com eles. Todos eles são diferentes e de cada um guardo recordações maravilhosas das quais jamais abdicaria mesmo tendo de sofrer a perda e a saudade que nunca passa. A falta de compreenção da maioria das pessoas é impressionante, agora está muito melhor, acham que por não serem humanos não devemos sofrer com a perda, não conseguem compreender o que é amar um ser que depende de nós para tudo e que nos ama incondicionalmente. São como crianças que nunca crescem.
    Gostava de dizer que com o tempo a dor passa, a minha nunca passou simplesmente aprendi a viver com ela mas também nunca me impediu de abrir o coração a novos amores. Para mim é mais dificil viver sem esse amor que só eles sabem dar. Só os meus filhos quando eram bebés olhavam para mim da mesma forma que eles olham, com inocência, amor e total confiança.
    Beijinhos e coragem!

  3. Vânia Duarte says:

    já te agradeci por teres feito este post e volto a fazê-lo. Porque sei o quanto é difícil mas tão necessário colocar por escrito a dor que nos vai cá dentro. Adorei as tuas dicas para viver o luto e sabes que me inspiraste a comprar plantas para a casa? Muita força Cat. um grande beijinho

  4. Helena dos Santos Pereira says:

    Tens razão, fala-se muito pouco sobre as perdas dos nossos amigos animais.
    A última gata que perdi morreu enquanto dava à luz. Não por complicações, mas porque o meu cão achou que devia intervir e roubá-la de mim. Ela foi, mas os dois pequeninos que nasceram ficaram. Os primeiros 2 dias foram horríveis. Não comi, quase não dormia e chorava a toda a hora. Mas ao mesmo tempo mantive-me ocupada, porque tinha aqueles dois gatinhos para criar e eu prometi à Francis (assim se chamava a gata) que iria fazer de tudo para que eles sobrevivessem. Consegui. Estão a caminho de fazer um ano. Foram 2 meses a dormir na sala, para estar ao lado deles, dois meses do meu estágio para o qual ia cansada e de coração nas mãos e com a maior vontade do mundo de voltar para casa para cuidar deles. Não há um dia que não pense na Francis e ainda me custa muito pensar nisto e em como ela me faz tanta falta, embora estivesse lá fora (ela era vadia, eu comecei a alimentá-la e ela foi-se deixando ficar, mas não gostava muito de vir para dentro de casa).

    Lena’s Petals xx

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