personal

Acho que vi o Charles na rua (crónica)

Nunca vou a lado nenhum sem o meu leitor de mp3. Quer esteja a dirigir-me a algum lugar específico, a pé ou de transportes, ou simplesmente a ir ao ecoponto ou supermercado; nunca o deixo para trás. É que nem o telemóvel me faz tanta falta.

E lá vou eu rua abaixo sem nunca completamente distinguir a realidade da atmosfera que cada música transmite.

Sim, é indispensável mencionar isto para que se possa compreender o que se passou na minha cabeça numa destas belas tardes solarengas que antecipam a chegada do verão.

Estava eu no Porto quando vi o Charles Manson, perto da rotunda da Boavista, quase em frente ao Santander Totta onde a minha mãe já trabalhou. Ou então era um clone cujo crescimento foi artificialmente acelerado. Mas eu prefiro pensar que era o Charles Manson, mesmo sabendo que ele está preso desde os anos 70 e que preso ficará até um dia perecer.
Estranhamente, Mr. Manson vestia um sobretudo verde bastante velho e gasto e um lenço na testa, o que, na minha opinião, só denunciava a sua verdadeira identidade de forma mais óbvia.
“Porque é que usa esse lenço na testa? Olhe que não o favorece nada. E não serve como disfarce, fique já a saber.”- Imaginei-me a iniciar uma conversa com o senhor.
“É só para tapar a suástica, menina.”- Disse-me ele, parecendo extremamente dócil e inofensivo. Sim, porque o Charles Manson agora é bonzinho.
Deu-me uma vontade incontrolável de lhe perguntar o que raio o teria levado a tatuar uma suástica na testa, mas não o fiz. Oh, coitado, eram os anos 70 e ele e a sua “família” eram hippies, toda a gente sabe.
Também me passou brevemente pela cabeça oferecer um pouco do meu fond de teint para tapar a marca. Duvido que dissesse que sim, mas mesmo que dissesse não ia funcionar, pois eu sou “ivory 01” e ele é um pouco mais escuro.
“Obrigado, irmã.”- Diria ele com aquele olhar esgazeado, mas dócil.
Agora o olhar esgazeado era meu pois só a ideia de pertencer à família dele me causava um certo desconforto. Mas não o quis dizer em voz alta.
“Adeus”- despedi-me muito à pressa. Não era por ter medo dele, mas estava mesmo atrasada.

Se não estivesse já atrasada para ir ter com uns amigos tinha continuado a fixá-lo insistentemente.
Ele segurava um pequeno cesto de palha onde pretendia que alguns transeuntes colocassem esmolas. Estava vazio. Na altura nem me apercebi disso e, devido á pressa de ir ter com o Zé e com a Joana, nem lhe deixei uma moeda.
De qualquer modo da próxima vez que por lá passar, dar-lhe-ei 1 euro. Só por precaução.

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