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Recordações da minha angústica adolescente

Ontem foi o Dia do Livro Português que, por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores, se tem vindo a assinalar a 26 de Março, dia em que foi impresso o primeiro livro em Portugal. Já agora, para quem não sabe (eu também só soube ontem), o Pentateuco em Hebraico foi o primeiro livro impresso em Portugal, a 26 de Março de 1487, pela mão do editor judeu Samuel Gacon, que possuía uma das primeiras oficinas tipográficas instaladas em Portugal, nomeadamente em Faro. Como no meu trabalho costumo actualizar o Facebook do projecto, por vezes com notícias de efemérides, esta não escapou. E fiz mais: criei uma pergunta: qual é o teu livro português favorito? Com isto- e por outras coisas que aconteceram ontem- comecei a pensar no meu secundário e a sentir-me estranhamente melancólica, o que não deixar de ser atípico, pois costumo sentir-me assim em relação ao básico, de longe (e à excepção da faculdade), o meu período favorito. Pensei em todos os livros que li no secundário, os livros portugueses que tive que ler para a disciplina de Português A. Constatei, pelas respostas da pergunta que lancei no facebook, que o livro favorito da maioria das pessoas nesta categoria é “Os Maias”, de Eça de Queiroz. Percebi também que faço parte de uma minoria que gosto verdadeiramente da “Aparição”, de Vergílio Ferreira. Andava no 12º quando o li e agora, anos depois, é que me apercebo, com algum divertimento, que a razão pela qual gostei tanto desse livro se prendeu com a minha ENORME angústia adolescente, algo que explorei neste meu texto. Lembro-me tão bem desse sentimento… Sentir que ninguém nos compreende, que não há ninguém parecido connosco e que, por isso, nunca poderemos partilhar o turbilhão de emoções que sentimos, a frustração que sentimos rapidamente a formar-se devido a essa mesma incapacidade,… É tudo tão bonito agora que acabou. Parte de mim deseja ardentemente recuperar essa raiva, essa revolta, mas não consigo. As revoltas agora são outras e o mundo é um lugar muito diferente. Ou então sou eu que estou diferente. Engraçado ver como algo tão simples e de que quase ninguém se lembra consegue despoletar tantas memórias. Então, meus caros leitores, seguidores ou “transeuntes” que cá vieram parar por acaso, vou mostrar-vos a minha fronha adolescente em plena fase de angústia, revolta, raiva e personalidade anti-social:

Até fazia pseudo-capas de cd’s com as minhas músicas favoritas da altura, as que melhor descreviam a minha condição. Neste caso, Silverchair- “Freak” e Hole- “Doll Parts”.

Havia uma outra foto minha a segurar uma pistola falsa junto à cabeça com a letra da “Come as You Are” em baixo, mas arrependi-me de a mostrar e apaguei-a antes de publicar este post. É demasiado parva, até para mim.
Super dark and emo and shit…
 Vá, pronto, aqui estava na escola, a segurar um caderno cheio de frases a condizer com esta fase da vida.

Tenho também um caderno preto, de espiral, que comecei a escrever aos 16 anos- e continuo- no qual recolho as melhores citações dos livros que leio.

Estas foram as que eu retirei da “Aparição” e que mais me tocaram:

“Melhor que a náusea das compensações medianas, preferias o absoluto da destruição.”


“Vivia sempre à escuta de uma invisível ameaça ao se mundo pessoal.”


“… os olhos doridos da sua divindade morta.”


“Porque é que no silêncio da noite nos assusta falar em voz alta?”


“Saberás tu como conheço o teu mundo agora que já não o habito?”

E passados estes anos continuam a fazer sentido para mim… Será que afinal a angústia adolescente não desapareceu completamente?




Fiquem com isto: (A Catarina de 16 anos vivia como se esta fosse a sua banda sonora pessoal).

E, já agora, a título de curiosidade, qual é o vosso livro português favorito? 🙂

9 Comments

  • Pedro Ribeiro

    Essas fotos passearam pela minha carteira e por livros que andava a ler – como a Identidade de Milan Kundera -, no Verão de 2004, tinhas tu 17 anos. A minha paixão platónica transformou-se em mulher da minha vida.

  • Carmo

    Lembro-me bem dessa Catarina de outras épocas. Recordo-me que só te aproximavas de mim para entregar justificações de faltas. 😉 Eras, na realidade, um pouco intratável, e eu até lido bem com todas essas angústias de adolescente. Gostei muito de ler este teu post – até o mostrei à Diretora da tua antiga escola secundária. Na realidade, quando estamos a trabalhar obras como a “aparição”, não sabemos bem como é que os nossos alunos as recebem. Eu recordo um miúdo que, uma vez, se deixou ficar junto da minha secretária e me disse “Stora, isto está a dar-me a volta à cabeça. Juro que até ando a bater mal por causa deste livro.” Recordo mal as respostas que lhe dei, qualquer coisa do género: “Não dês muita importância a estas questões,o tempo acaba por dar resposta a tudo ou anular a importância das perguntas.” Nunca tinha percebido, contudo, a forma como os teenagers adotam estas problemáticas e o teu post foi bastante importante para mim. Agora estuda-se o “memorial do convento”. Também é bom, mas é diferente.

  • João Vilela

    Eia bem, a Profª Carmo! Já não me lembrava de a ver!:) Espero que tudo esteja a correr-lhe bem e que tenha alunos com o triplo da minha qualidade e um terço da minha negligência.;) Acerca do texto, essa angústia tende a ser comum: primeiro, porque é exacerbada por tudo o que é banda, subcultura, programa televisivo «bué da jovem», revisteca de teenagers (sobretudo miúdas), etc. etc. Depois, em termos objectivos, a adolescência é uma fase estapafúrdia da vida em que nem se é totalmente adulto nem propriamente criança: há ali uma lenta transição, chata, com avanços e recuos, negociações, gestão de correlação de forças com a escola, os pais, os amigos, enfim, uma seca. Só corre bem quando, como eu, se é underdog no princípio e se sobe fulgurantemente a gajo com piada. Aí a passagem parece que já ocorreu, pelo menos na parte que mais conta na altura, e fica tudo bem.;)
    Agora, sff, vou bisbilhotar o blogue da stora.;)

  • Carolina

    Ando a ler “Os Maias” e confesso que não estou a achar grande piada :s
    Quanto às fotografias, foi uma fase, no mínimo, marcante não? 🙂

  • Catarina

    Pedro: Boas memórias. Também eu na altura andava com uma foto tua a tocar guitarra dentro de um livro (nas férias do verão, se não me engano). Tão fofos. <3*

    Cátia Rodrigues: Oh, és uma querida, obrigada. :D*

    Carolina: Foi muito marcante sim. Acho que a adolescência, quer seja uma altura boa ou má para cada um de nós, não deixa de ser uma fase marcante como todas as fases de transição o são. 🙂

  • Catarina

    Prof. Carmo: Ahahah, nem acredito que se lembra disso! E o que disse a Directora? Que não era má ideia voltar a incluir a “Aparição” no programa? Ainda bem que captou a essência do post, pois muitas vezes os mais novos não costumam vocalizar aquilo que sentem quando lêem este tipo de obras. Eu própria só o fiz agora.
    Percebo bem esse aluno e é preciso uma pessoa pensar e tentar atribuir sentido àquilo que lê na “Aparição” para se sentir minimamente incomodada- digamos assim- a esse ponto. O problema é quando tentamos perceber o que tudo aquilo significa, comparando com as nossas próprias experiências, o que, quando se tem 16/17 anos, não resulta e dá-nos um nó no cérebro.

    Vilela: Sim, essas influências televisivas (e não só) contribuem para a tal angústia adolescente e concordo quando dizes que é uma fase parva e uma transição chata, mas é uma fase muito importante na vida. Depois deste tempo todo e apesar de hoje em dia ser uma pessoa completamente diferente, não consigo pensar em termos de “aquela Catarina era outra pessoa”. Não me consigo dissociar totalmente dessa pessoa; ainda sou a mesma, mas melhorada exactamente por me lembrar de várias decisões que tomei nessa altura. E também confesso que adoro olhar para trás e ver as tolices que escrevi e, principalmente, as letras de música… Ai que colecção…
    Agora também vejo que era feliz, apesar de não me sentir como tal na altura (ou de não me querer sentir feliz como adolescente perturbada que era).

  • Pics

    Ainda hoje ao jantar estive a falar na Aparição, que o meu namorado diz que não faz sentido nenhum e que ninguém gostou do livro.
    Eu lembro-me de devorar aquilo, tendo em conta as sábias palavras da Prof. Carmo Oliveira “neste livro morre toda a gente, até o cão”. A partir daí já não podia ficar chocada com nada, só apreciar as frases excecionais do Sr. Vergílio Ferreira.

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