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Curiosamente, a pior coisa de partir um tornozelo não é a dor

Já fez e passou uma semana que parti o tornozelo. Eu, que nunca parti nada na vida. Sim, já o tinha torcido duas vezes ao longo da vida, mas nunca pensei parti-lo verdadeiramente. E que dor que foi (e que continua a ser!). Mas o que ninguém me disse foi que a pior coisa nisto tudo não é a dor física.

Quando era miúda via muitos colegas de perna ou braço partido com gessos assinados pelos colegas e parte de mim – a parte de criança inconsciente – também queria passar por aquele aparente ritual de transição. Como se se tratasse de uma parte incontornável da infância. Mas nunca se deu. Até agora, claro.

Neste momento encontro-me de perna ao alto, a fazer gelo e a tentar evitar usar as muletas porque a posição vertical da perna me traz dores horríveis. Estou também a aguardar que me chamem para cirurgia. Vou precisar de parafusos e de uma placa. Não foi uma lesão meiguinha.

Mas nesta semana que já passou desde o meu acidente, o que mais me custou foi:

  1. não poder andar e estar muito limitada em termos de mobilidade e de coisas que posso fazer sem as dores lancinantes voltarem (= não posso estar quase tempo nenhum em pé);
  2. não sair de casa sem ser para ir à CUF a consultas, mudanças de ligaduras e exames pré-operatórios;
  3. não sair de casa – ponto;
  4. dormir mal por não ter posição confortável (tenho uma tala de gesso pesada e que me magoa em várias posições);
  5. ter que me injectar diariamente com um anti-coagulante (nunca me tinha injectado com nada e não creio que tenha veia de enfermeirapun intended;
  6. não ter data da cirurgia ainda e não saber quando é que vou voltar a andar; (UPDATE: quando escrevi este post ainda não tinha, mas já soube que vai ser amanhã!)
  7. ter que cancelar as minhas férias nos Açores, que estavam programadas (e os voos pagos) para o início de Novembro. 

Há que diga para me focar no positivo e, acreditem, não faço eu outra coisa desde o dia 1, mas por vezes, no meio de todos os “podia ter sido bem pior”, sai-me um “sim, mas também podia ter sido muito menos grave, não?”. Isto porque, inicialmente, pensei que se tratava de uma entorse muito dolorosa. Não pensei logo que estivesse partido, nem muito menos que precisasse de ser operada e ainda menos que tivesse que me injectar com o que quer que seja.

Aprender a desacelerar?

Muita gente me tem dito que há que aprender a desacelerar (bem… que remédio agora!) e tirar o melhor destes momentos. Sem dúvida, concordo a 100%. Mas é mais fácil falar do que actuar e, por vezes, lá vem um dia menos bom em que a impaciência está ao rubro e me sinto mais ansiosa do que nunca, porque só quero que me marquem um dia para a operação e só quero ter uma previsão de quando poderei voltar, pelo menos, a pousar o pé no chão.

A sorte é que estes dias têm sido mais escassos do que aqueles em que me sinto optimista. 

Parte de mim pensa que, depois disto tudo e assim que a minha mobilidade voltar ao normal, vou dar mais valor aos pequenos momento e às pequenas rotinas e… talvez seja verdade, mas também é verdade que não sou exactamente o tipo de pessoa a quem faltam estes momentos de Mindfulness. Todos os dias dou por mim a apreciar os pequenos momentos da minha rotina, mesmo durante o tempo em que espero pelos transportes.

Inspiração nas pequenas coisas nunca me faltou, a verdade é essa. Não é à toa que são elas que me inspiram a escrever alguns textos, como este – 703 – ou este – Celeste e o homem do coelho-caramelo.

O que há de positivo nisto?

Não vou mentir: às vezes custa-me afirmar que há mais coisas positivas do que negativas, mas que as há, há. Para além da companhia dos meus gatinhos – e que preciosa que ela é – é ter cada vez mais a certeza de que aquela pirosice do “casa com o teu melhor amigo” não é treta nenhuma. E, claro, ainda há a questão de ter mais tempo para dedicar à escrita (embora esteja também a trabalhar a partir de casa). Este fim de semana, por exemplo, estou numa missão de ver vários filmes sobre as vidas de escritoras como Mary Shelley (Mary Shelley – 2017), Enid Blyton (Enid – 2009) e Beatrix Potter (Miss Potter, 2006, este último filme é repetido, mas eu adoro-o).

Com esta saga de filmes (e também de séries) estou com imensa vontade de voltar às short stories. Quem sabe se não sai daqui algo bonito. 🙂

Até lá, e porque não sou menina de deixar o Halloween passar em branco nem mesmo com um tornozelo partido, vou preparar uns posts alusivos à ocasião! O que acham?

Entretanto, a preparar o período de recuperação que me espera, não há nada como encomendar uns quantos livros no Book Depository. A chegada de novos livros deixa-me sempre feliz. Também sentem o mesmo?

A propósito deste post e da questão das rotinas:

Concluindo

Não quero que pensem, por este post, que estou a queixar-me da vida (ok, estou um bocadinho), mas isto era o que se fazia nos blogs once upon a time: dar updates da nossa vida. E este blogs que aqui vêem já testemunhou muito da minha desde que o criei, há 11 anos atrás.

Posso estar numa fase mais vulnerável e, sim, talvez mais queixosa, mas algo me diz que quando puder voltar à minha vida normal, nada me vai parar.

6 Comments

  • Andreia Moita

    Gabo-te o optimismo nesta situação. E sim, podes com certeza ter dias menos bons e resmungar. (Ah e aproveitar todo o mimo possível, isso é totalmente permitido eheh) Desejo que tudo corra pelo melhor e possas voltar em grande! Beijinho

    • Catarina Alves de Sousa

      Obrigada, querida Andreia! Oh sim, essa de aproveitar todo o mimo é uma excelente dica. Faço questão de a seguir à risca. 😀
      Beijinho grande :*

  • Analog girl

    Ai miúda, que isso não foi nada meiguinho… Eu nunca gostei de paintball, agora ainda gosto menos.
    Não deve ser nada fácil desacelerar à força, estava a ler isto e a pensar… se fosse comigo, com um puto pequeno a depender de mim, não sei como faria. Acho que ficaria mais ansiosa do que tranquila. Claro que existe sistema de apoio, mas esta coisa de sermos mulheres fortes habituadas a transportar responsabilidades connosco e de repente virmo-nos incapacitadas, não é fácil de gerir.
    Ao menos que os dedos ainda se mantenham ligeiros e a imaginação corre livremente. A própria da Frida Kahlo criou algumas das suas obras mais emblemáticas enquanto estava confinada à cama, portanto para quem é criativo há um lado bom nisto tudo. 🙂

    E sim, livrinhos novos a chegar e páginas por desvendar é sempre bom!
    As melhoras e força para aguentares essas dores. Vai ficar tudo bem.
    Beijinhos

  • Marta Chan

    Damn girl! Justamente quando vou a Lisboa 😛 No meio disto tudo estás com a atitude correta, aceitaste a tua condição e agora estás a tirar partido dela. Claro que custam as dores, o cancelamento da viagem e o não sair de casa mas de que serve queixarmo-nos? Bola prá frentxi mininaaaa 🙂 um abracinho apertado, vê se te pões boa!

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