Quem não tem o seu próprio negócio é um ovo podre

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Cuidado, há toda uma nova caça às bruxas por aí. Sim, já vem sendo quase uma tradição começar este tipo de posts com uma hipérbole, mas vocês já me conhecem. A verdade é que está a nascer algo que considero perigoso: uma crença assente no facto de toda a gente ter que ter o seu próprio negócio e no facto de ser impossível ser-se feliz e realizado num emprego full time por conta de outrem.

Apercebi-me disto recentemente. Nunca antes vi tanta gente a ter o seu próprio negócio e – atenção – isso é óptimo e apoio muita iniciativas empreendedoras e pequenos negócios que nasceram de pessoas brilhantes, mas… – e há sempre um mas – nem toda a gente precisa de ter o seu próprio negócio para ser feliz. O mito é esse, que o trabalho por contra própria traz uma felicidade que um emprego por conta de outrem nunca na vida trará.

Como já podem ter imaginado, acho este pensamento incrivelmente redutor. Somos todos diferentes, temos ambições diferentes e até noções distintas daquilo que é a ambição. Para uns, ambição é poder gerir o seu tempo e trabalho da forma que quer, para outros ambição é trabalhar por objectivos e ganhar um salário elevado, mesmo que para isso tenha que trabalhar horas extra.

Mas não… Hoje em dia é quase vergonhoso assumirmos que somos felizes em qualquer outra coisa que não o nosso próprio negócio. Ultimamente tenho ouvido coisas como:

– O que fazes?
– Trabalho numa empresa de […], mas estou a tentar lançar o meu negócio de […] para poder despedir-me.

Problema #1: Quit your day job

Outra coisa que tenho visto também é a formação de um movimento que tenta incentivar pessoas a despedirem-se dos seus empregos em prol da perseguição dos seus sonhos (cliché mais cliché não há). “E qual é o problema disso”, perguntam vocês? Nenhum! O problema é quando as pessoas se despedem para se dedicar a algo que acreditam que lhes traz felicidade, mas que, por outro lado, não lhes traz dinheiro. E não sejam hipócritas ao apregoar que o dinheiro não importa. Infelizmente, tudo aquilo de que precisam para viver é adquirido e mantido com dinheiro. Já nem vou mencionar os básicos (comida, abrigo, transportes, etc.), mas vou relembrar-vos de que precisam de dinheiro para investir no vosso negócio.

Problema #2: Não tens o teu próprio negócio? Estás conformado e tens falta de ambição

 
 

Ahh este argumento… Sim, este movimento associa uma situação laboral estável à falta de ambição! Ao que isto chegou. Juro que não consigo compreender… Quer dizer, eu tento. Estas pessoas acreditam que quem tem uma trabalho estável por conta de outrem é uma ovelha, peão em linha, igual a toda a gente, talvez por elas próprias terem passado por empregos de que não gostaram e onde se sentiram miseráveis. Mas nem toda a gente que trabalha por conta de outrem é infeliz! Sabem disto, certo? E não quer dizer que lhes falte ambição, que não sejam criativas e não tenham quaisquer ideias de negócio! Já pensaram que é possível terem um emprego de que gostam e ao mesmo tempo terem os vossos próprios negócios por fora? Se um dia, o vosso hobby ou negócio começar a trazer-vos tanto dinheiro como o vosso emprego, aí sim podem pensar em deixá-lo para se dedicarem a 100% àquilo que criaram. Ou – ideia louca – podem gostar tanto do vosso trabalho inicial que não o vão querer deixar!

O bottom line é que isto de achar que quem trabalha numa empresa criada por outra pessoa é digno de pena e uma característica de um autêntico loser tem que acabar . Achar que alguém só é cool quando tem o seu próprio negócio é simultaneamente triste, infantil, idiota, ignorante e até perigoso.

Problema #3: Negócios em que mais ninguém está interessado

 

Quando digo que este pensamento pode ser perigoso, refiro-me a pessoas a quem foi dado o conselho “persegue o teu sonho” e “faz o que te dá prazer”, depois despediu-se para ajudar o seu sonho a tornar-se num negócio porque é realmente aquilo que a move, que a apaixona e que gosta de fazer acima de qualquer coisa. Porém, ainda estão na fase de angariação de clientes e ainda não estão a fazer dinheiro que se veja.
O outro problema dentro deste problema é que, por vezes, os nossos sonhos não interessam a mais ninguém. A sério, não vos consigo dizer quantos negócios estapafúrdios é que vi nos últimos tempos e que tenho a certeza que interessam e muito pouca gente, demasiado pouca gente para sustentar um negócio e um empreendedor…

A sério, digo-o com genuína preocupação: antes de se lançarem numa aventura destas parem de pensar um bocadinho naquilo que vocês querem e perguntem-se: será que isto interessa a mais alguém? Depois, façam estudos de mercado, inquéritos, o que quiserem para averiguar se têm aí algo interessante para as outras pessoas e que as seduza enquanto potenciais clientes.

Conclusão

 

Ao pesquisar por este tema, encontrei uma frase que resume tudo aquilo que eu podia ter dito neste artigo em vez deste testamento que escrevi:

“Empreender virou moda. Nunca tanta gente saiu do emprego para montar um negócio. A imprensa o tempo todo revela casos de sucesso de quem criou um empreendimento, porém nunca conta os detalhes de cada história. Mostrar o ponto de partida e chegada de um empresário de sucesso pode render uma boa pauta, mas nunca vai ser fórmula de sucesso para ninguém.” 

Outra conclusão que tiro daqui também é que há por aí muita gente a fazer muito dinheiro com as pessoas que querem à força ser empreendedoras ao dizer-lhes aquilo que querem ouvir. Se repararem, a auto-ajuda, seja em forma de workshops ou livros, está a tomar o rumo do “empreendedorismo” ao apregoar aos sete ventos os clichés que toda a gente conhece, mas que as pessoas fragilizadas pelas mais variadas circunstâncias da vida parecem ter necessidade de ouvir por parte de outras pessoas.

Clichés como:

“Vais chegar lá! Acredita, vais vencer!”
“Estás a um único centímetro da vitória. Não pares! Se desistires agora, será para sempre. Toma, lê a estratégia do oceano azul. Faz mais uma mentoria, participa de mais uma sessão de coaching. O problema é que o teu mindset não está ajustado. Precisas de ser mais proativo. Vamos fazer mais um powermind? Eu faço-te um bom preço…”

Precisam mesmo de pagar a alguém para ouvir isto?

O engraçado deste falso empreendedorismo é que tem muito pouca acção, pouco trabalho real, porque também foi pouco pensado e apenas assente num sonho.

Disclaimer: obviamente que não me estou a referir a TODAS as pessoas que trabalham por conta própria, até porque muitas delas são bem sucedidas e, se o são, não é por acaso. Trabalhar por conta própria dá muito trabalho e requer muitas e longas horas de trabalho, mas também muito talento e paixão por aquilo que se faz. Mas, acima de tudo, as pessoas que vingaram nos seus próprios negócios, são as que têm pessoas (compradores/clientes) interessados naquilo que fazem.
Também não disse que era má ideia deixar um emprego seguro para se dedicarem ao vosso projecto, disse apenas que não é algo que devem fazer por impulso, sem ter uma rede de segurança. Só isso. 🙂

13 Comments

  1. Joana Sousa says:

    THANK YOU! Moça. É isto. Thank you. Haja noção, bom senso, e consciência de que não é só estalar os dedos e que o mundo não funciona se cada um de nós trabalhar por conta própria.

    Jiji

  2. Ana S. says:

    OBRIGADA! Tenho andado a pensar numa forma de escrever isto e cá está, um texto que reflecte tudo o que penso. É que a questão nem se prende apenas com o feitio da pessoa, mas também com a área que decidiu seguir. A minha, por exemplo, é muito ligada à investigação – e fazer investigação por conta própria é, claro está, uma impossibilidade. Está tudo dependente de centros de investigação e financiamento, ponto.
    Mas creio que isto decorre tudo da situação em que estamos. O empreendedorismo é muito valorizado porque não há emprego. E sublinho, emprego. Porque trabalho (a fazer) há muito. Ainda há uns meses li uma notícia que dizia que o empreendedorismo em Portugal tinha uma taxa de sucesso baixíssima porque a maioria decorria de situações de necessidade – isto é, pessoas desempregadas. E SIM, para muitas empresas o sonho dos outros é um negócio. Ainda no outro dia dei por mim numa formação, perdão, sessão de coaching (porque formação implica, a meu ver, que se aprenda alguma coisa) sobre como despertar a criatividade e ser empreendedor. Não digo que fosse tudo mau, mas garanto que 90% do que ouvi não me serviu para nada. Felizmente não paguei por aquilo.
    Ana S. recently posted…Bloggers Camp 2016 | Eu vou!My Profile

  3. Sofia Garrido says:

    Ri-me com o que escreveste, Catarina, porque adoro o tom irónico! E achei um artigo muito útil! Espero que seja lido por muita gente que realmente precise de reflectir sobre o assunto.
    Isto é algo em que já tinha pensado e é sem dúvida cada vez mais frequente. Já dei esse mesmo conselho sobre largar um emprego por conta de outrem apenas se o sonho de ter o próprio negócio começar a dar pelo menos o mesmo rendimento.
    A ideia de largar tudo por impulso para seguir esse sonho é muito bonita, algo poética até, mas pode ser muito irresponsável, além de arriscada.
    E não são só os negócios que não interessam a mais ninguém que falham. Há pessoas com ideias excelentes que vêem o seu sonho falhar por N factores. É mesmo necessária muita pesquisa de mercado e aprender como gerir o negócio.

    Beijinhos
    Sofia Garrido recently posted…My 6 Favourite Products by Kiko MilanoMy Profile

  4. Nádia says:

    É mais um dos efeitos da ideologia neoliberal, a ideia de que temos todos que ser “empreendedores”. Pois, não. Há quem goste de trabalhar por conta de outrem, há quem não veja o trabalho como fonte de realização pessoal, etc. O meu trabalho de sonho -investigação científica na minha área de formação- é um trabalho por conta de outrem. Não é que ache justos os horários de trabalho (passar a maior parte do dia a trabalhar não é vida), mas isso é toda uma questão à parte.

  5. Mafalda says:

    Mais uma vez tiraste me as palavras da boca. Antes de uma pessoa se “atirar” para o empreendedorismo deve pensar muito bem no que se está a meter. Sonhos não põem pão na mesa. É muito bom fazermos o que gostamos, mais se o que gostamos de fazer não nos dá lucro suficiente então se calhar deve ser considerado umhobby e não abandonar o trabalho que se tem por um sonho demasiado incerto. Eu fiz as coisas ao contrário, não me arrependo, mas não recomendo. Sair da universidade e começar o seu próprio negócio? Sem experiência ou contactos? Not the best move. Até porque não há resultados instantâneos, não é preciso pesquisar muito para se perceber que só no terceiro ou quarto ano de um negócio é que ele começa a estar estável.

  6. Rita Completo says:

    Olá. Considero que uma pessoa deve fazer algo que a faça feliz, seja por conta própria, seja por conta de outrem. Mas sem nunca esquecer de manter os pés no chão, como se costuma dizer. Há que tentar encontrar um equilíbrio entre o sonho e o viável.
    Eu que o diga! Adorava despedir-me e só fazer consultoria de imagem (não necessariamente por conta própria), mas como para já não é viável tenho tentado manter o emprego e ir fazendo consultoria de imagem fora do horário laboral.
    Beijinhos,
    Rita C.
    http://www.ritacompleto-consultoria-imagem.com

  7. Lídia says:

    Não temos todos perfil para a mesma coisa. Durante muito tempo pensei se poderia fazer outra coisa, depois vi que sim e depois vi (leia-se aprendi duramente) que é possível ser-se duas coisas, estilo Batman. E tenho um trabalho de dia e outro de noite/fim-de-semana. É fácil? Não. Preferia dedicar-me apenas a um? Sim. Sobreviveria? Não. (E já ando nisto vai para 3 anos.) É preciso ter os pés assentes no chão. Se os entrepreneurs deste país fizessem contas aos impostos antes de começar, percebiam logo que “seguir o sonho” é trabalhar por conta de outrém. LOL 🙂 Sejam felizes como são e não por causa das modas de ser X ou Y. Right? 🙂

  8. Ana says:

    Ele há dias em que acho que vives dentro da minha cabeça, juro!! É que é mesmo assim e no meio desta conversa toda há ainda a considerar:
    – Os jornais e revistas que falam dos casos de sucesso também podiam falar dos de insucesso porque também os há. É óbvio que andamos para aqui todos com um mindset (ahahaha!!!) de que somos todos vencedores e isso não é nada mau, antes pelo contrário, mas tal como disseste podemos ser vencedores a trabalhar por conta de outra pessoa;
    – Há um factor importante de que ninguém se lembra: toda esta “fantasia de unicórnios a vomitar arco-iris” é importada de mercados anglo-saxónicos em que a educação, a forma de estar na vida é diferente. É importada de mercados em que se compra tudo e mais alguma coisa (Hello US of A!) e onde tens mercado para tudo.
    – Não esquecer que o povinho luso também sofre de dor-de-cotovelo-crónica por isso quem se safa com um negócio próprio neste país, para mim, é um herói (mas sim, não ataquemos por aí).
    – Estou desempregada desde Julho do ano passado, já respondi a milhões de anúncios (Oh yeah, sorry, you’re over 40!!) e ando a pôr-me a jeito há calendas para encontrar o meu trabalho de sonho. Por causa disso, já me passaram N ideias pela cabeça para pôr em prática – vontade de avançar? Pouca, muito pouca.
    Aahhhhh….. Olha, ler o que escreveste foi como se eu tivesse escrito isso mesmo. Já ando a pensar neste assunto há muito tempo mas não sabia como pô-lo cá fora. Fizeste-o de forma brilhante! Beijinhos!

  9. Madalena says:

    A minha faculdade tem uma “empresa” a que chamam laboratório de Startups e estão constantemente a incentivar-nos a ser empreendedores, e posso dizer que até saem de lá bastantes casos de sucesso. Por vezes até há quem não termine os cursos porque o negócio que criaram é tão lucrativo que não justifica continuarem na faculdade. No entanto tenho noção, tal como demonstras no texto, que esses casos são raros e que a taxa de insucesso é muito maior. No fundo, há que não ser influenciado pelas tendências atuais e criar um negócio do ar, sem estudar o mercado existente primeiro 🙂
    Madalena recently posted…TrobadoresMy Profile

  10. Margarida Lozano says:

    TAL E QUAL! Sem tirar e pôr, Cat!
    E eu tive um dejá vù quando li a ultima parte do teu post… é que ultimamente andam aí uns passarinhos a revelarem-se assim 🙂 ás vezes dá vontade de dizer umas quantas coisas em relação ao falso empreendedorismo.
    Mais uma vez, um excelente post!

  11. Vanessa says:

    Finalmente alguém que toca na ferida! Ultimamente, no meu ciclo de amigos/conhecidos, ter um negócio próprio é a tendência. Parece que deu tudo em parvinho e ainda aplaudem!
    Há pouco tempo vi duas colegas da minha mãe a despedirem-se, a aderirem a um fundo qualquer de empréstimos para criarem os seus negócios… e digamos que em 3 meses de “negócio próprio” só têm dinheiro para as despesas e mais nada.
    Acho que as pessoas devem, sim senhor, continuar nos seus trabalhos por contra de outrem e fora disso fazer o seu negócio. Se conseguirem ter uma carteira de clientes grande, provavelmente podem investir nesse negócio, mas deixar um para entrar noutro que começou do zero… é brincar com o diabo!

  12. Sofia Mais Feliz says:

    Simplesmente AMEI este post… muito, muito obrigada! A blogosfera urgia em ter uma partilha como esta!…

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Obrigada, Sofia! Completamente… isto anda um bocado fora do controlo. Não podemos agora todos despedir-nos e ter os nossos “próprios negócios”! Para já, andam aí ideias simplesmente terríveis, e depois a economia não funcionada assim!
      Beijinho*

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