Histórias de Terror Laborais: o CEO ilusionista e a espera de 1h30 por uma entrevista

Posted on

Se achavam que as minhas Histórias de Terror Laborais tinham terminado – para já – com a da semana passada, enganaram-se. Tenho outra para vos contar, também ela surreal, e que ainda nem acredito que aconteceu (à semelhança da outra) de tão estapafúrdia que foi. Para vos situar, esta história que vos trago hoje situa-se duas semanas após a que contei anteriormente, ou seja, duas semanas depois de ter sido despedida do meu trabalho remoto.

Andava a candidatar-me a algumas ofertas que achava interessante desde que soube que tinha sido despedida. Houve uma oferta e um projecto que eu achei absolutamente fascinantes. Envolvia comida, fotografia, filmagens, tudo num estúdio todo trendy numa zona gira da cidade. Um estúdio em que se fotografava e filmava comida, se produziam receitas, onde havia chefs a cozinhar e… para o qual precisavam de alguém para Social Media e Content.

Fiz a melhor candidatura que consegui numa segunda-feira e ligaram-me na terça feira de manhã. Tinham adorado a minha candidatura e queriam que eu fosse a uma reunião o mais rapidamente possível. Eu respondi que só não podia naquele mesmo dia, mas que estava livre em qualquer outro dia. Ficou combinado para essa quinta-feira, dia 30 de Agosto às 10h da manhã.

A entrevista que nunca chegou a ser

Passei umas boas horas a preparar-me para a entrevistas. Estudei o site da empresa de ponta a ponta, já sabia de tudo o que faziam, que perguntas gostaria de lhes colocar no final da entrevista, como me apresentar, etc. Estava super entusiasmada no dia da entrevista e até acordei bem mais cedo do que o que seria necessário. Chamei um Taxify e lá fui eu.

Cheguei meia hora antes, mas não havia problema. Tinha levado um livro pequeno que ultimamente andava comigo para todo o lado por ser leve e “portátil”, ao contrário do Tempo Entre Costuras que estava a ler e que era pesadíssimo.
Fiz então algum tempo na rua antes de entrar no estúdio.

    • 9h56 – entrei e apresentei-me à recepcionista. Ela diz-me “Chegou cedo”.
    • Hmmm… faltavam apenas quatro minutos, mas ok. Ofereceu-me um café e eu aceitei.
    • 10:05 – ainda não tinha chegado a pessoa que me ia entrevistar
    • 10:30 – ainda não tinha chegado a pessoa que me ia entrevistar
    • 10:40 – ainda não tinha chegado a pessoa que me ia entrevistar –> fiz uma nota mental de aguentar até às 11:00. Mais que isso seria para desistir.
    • 11:00 – a recepcionista diz-me que a pessoa que me ia entrevistar estava presa no trânsito (you know… aquele trânsito maluco das onze da manhã – não havia, btw, estava tudo a verde) mas que estava a chegar.

Eu que até estava meia nervosa, meia entusiasmada, nesta altura já só estava furiosa. A minha postura mudou radicalmente e, se antes estava  disposta a ter a melhor entrevista de sempre e a garantir o lugar, nesse momento já estava naquela do “que se lixe, seja o que tiver que ser…”. Estava furiosa e já só me queria ir embora.

Escusado será dizer que acabei de ler o meu livro ali à espera.

  • 11:30 – ninguém apareceu. O trânsito devia estar mesmo uma loucura. Levantei-me e fui comunicar à recepcionista que me ia embora.

A maior falta de respeito é desperdiçarem o tempo das pessoas

À falta de melhor vocabulário para vos explicar como me senti, resumo a isto: uma merda. Foi assim que me senti. Descartável, idiota, uma parvinha que estava entusiasmada e iludida e foi tratada como… nada. Pode parecer excessivo, mas depois da forma como eu e as minhas ex-colegas fomos despedidas do nosso trabalho anterior, isto caiu-me especialmente mal. Estava farta de faltas de respeito. É que não desperdicei só o meu tempo, mas também o meu dinheiro. Paguei TAxify para me certificar de que chegava a tempo e horas. Quis garantir que seria pontual, pena que não tenham tido o mesmo respeito para comigo.

Quando cheguei a casa estava triste e com raiva e quis escrever-lhes um email a dar o meu feedback da “entrevista” dessa manhã, mas decidi acalmar-me primeiro, almoçar, descansar a cabeça e então escrevi.

A resposta e o almoço com o CEO

Estive sem resposta o dia inteiro.
Já sem esperar receber o que quer que fosse, o CEO envia-me uma sms à noite:
Fiquei mais calma com esta resposta e achei que merecia uma segunda oportunidade. Imprevistos podem acontecer a todos nós, mas a forma como lidamos com as pessoas que são afectadas por eles é que diferem… Mas pronto, eu não tinha nada a perder. Respondi.
A partir daqui vou deixar de narrar. Vejam a nossa interação por sms, as horas e os dias.
 
E assim terminou a minha comunicação com o CEO. Depois de lhe ter dito que o restaurante estava fechado nunca mais voltou a comunicar comigo. Começo a achar que isto era tudo uma grande manobra para roubar os rins e que depois deste “almoço” eu iria acordar (ou nunca acordar) numa banheira cheia de gelo.
Enfim, eu já brinco com estas situações, mas a verdade é que nunca me tinha acontecido nada do género. Continuo a surpreender-me para estupidez humana e pela falta de respeito e de empatia que a maior parte das pessoas sente hoje em dia.

Uma pequena nota para empresas que estão a recrutar

Por detrás das empresas estão pessoas. Seres humanos que erram, que também dizem impropérios quando batem com o cotovelo e que também vêem séries do Netflix. São tão humanos como os candidatos, certo? Então percebam isto de uma vez por todas:

Num processo de recrutamento, não é apenas a empresa que está a avaliar o candidato. O candidato também está a avaliar a empresa. O candidato pode chegar à conclusão de que não quer trabalhar na vossa empresa ou que não gostaria de trabalhar convosco por vários motivos, tal como vocês podem não querer ficar com ele porque não tem experiência, porque não criaram empatia durante a entrevista, etc. É uma processo de parte a parte. Um candidato não tem que mostrar que faz tudo e aguenta tudo por vocês ou pela vossa empresa. Não o testem demasiado, ninguém está para isso e vocês não o merecem. Tratem as pessoas com respeito e também serão respeitados.

 

Se há algo que aprendi com isto é que não há nenhum trabalho que mereça que eu fiquei 1h30 a aguardar pela entrevista sem motivo nenhum.
Se não me respeitam e não respeitam o meu tempo, então eu também não quero trabalhar com/para vocês de forma alguma. Nunca iria funcionar a longo prazo.

Já vos aconteceu algo semelhante?

10 Comments

  1. Nuno Reis says:

    E o português da primeira SMS não te fez desconfiar? Quem escreve assim é melhor para roubar rins do que para dar emprego 🙂

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Ele não é português, pelo que dei o benefício da dúvida. 🙂

  2. T. says:

    Sinceramente, pode até acontecer um atraso de 1h30. Imprevistos acontecem e poderá ser quando alguém vai recrutar um funcionário. Estranho, para mim, é a abordagem via SMS mas se calhar sou muito old school…

    Continua a tentar porque felizmente há muitas empresas com equipas de recrutamento que sabem dar valor às pessoas!

    https://queropagarasminhasdividas.blogspot.com/

  3. Ana says:

    Bolas, dava perfeitamente para ver que ele queria outra coisa. Almoçar noutro lado? Tratar – te por tu? És muito ingénua.

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Dava? Mas o que é que ele queria então, diz-me lá que és tão entendida, Ana. Não sou ingénua, nem muito menos medrosa.
      Não deves ter ido a tantas entrevistas quanto eu, porque já tive umas bem fora da caixa e correu tudo de forma normal. Há por aí muitos projectos alternativos que rejeitam a ideia de uma entrevista tradicional e não há mal nenhum nisso, principalmente quando é num sítio “público” onde estão muitas outras pessoas. Somos adultos, não podemos também andar aí com medo de tudo, isso é só ridículo. Muitas boas oportunidades nos vão passar ao lado só porque temos medo daquilo que é diferente.
      Este não é exemplo disso, com certeza, mas conheço muitos casos que serviriam como tal.

  4. Inês says:

    Muito triste haver empresas que não têm consideração nenhuma pelas pessoas que tentam contratar :/
    Espero que a próxima experiência seja o oposto desta, boa sorte 🙂

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      É mesmo triste, Inês… mas por cada empresa destas deve haver umas dez que são sérias e respeitam os candidatos. E é nessas que eu (e qualquer pessoa que tenha passado por algo semelhante) nos devemos focar no futuro. 🙂

      Obrigada, querida. :*

  5. rita erre grande says:

    Sinceramente quando li as sms fiquei um pouco apreensiva, uma entrevista num almoço ao fim-de-semana? Achei estranho mas posso ser eu que não tenho grande experiência.
    Boa sorte para a luta 🙂

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Eu percebo, Rita, mas a verdade é que já tive entrevistas ao fim de semana por várias razões e tendo em conta que seria num espaço público e com várias pessoas, não me preocupei com isso. Agora, estando o sítio fechado já me pareceu bizarro e francamente assustador. 😐
      Obrigada, Rita! 😀

  6. Sofia Garrido says:

    Catarina, estas ‘histórias de terror laboral’ davam excelentes argumentos para sketches de comédia dramática!
    E estou a dizer isto por um lado, por escreveres tão bem, por outro por serem situações mesmo caricatas.

    Essa ausência de resposta depois de tudo o que se passou, depois do email a querer compensar e as sms para combinar o almoço depois de teres tu o cuidado de confirmar o horário do restaurante (o que devia vir por parte de quem fez a sugestão) é incrível, e mais um reflexo da quantidade de pessoas que por cá anda sem respeito pelo outro em vários sentidos.

    Um beijinho,

    Sofia Garrido • Photographer | Blog

Leave a comment

Your email address will not be published.

CommentLuv badge