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Nyx: a morte do ídolo

[…] Sangue. Morte. Tragédia. A bela tragédia que só na morte se pode viver. Assim, aquele homem viver a sua mais bela tragédia. Agora que pensava nisso, tudo aquilo já não lhe parecia assim tão triste: tratava-se de uma tragédia romântica, a morte mais nobre que se pode ter. a morte dos que ousam reger os seus próprios destinos, retirando-os das mãos de deuses imaginários. Poder. O verdadeiro poder que, descobrira recentemente, recaía sobre a capacidade de decidir como, quando e onde morrer, “a morte voluntária contribuía para uma parcial restituição de equilíbrio no ciclo da vida”, concluiu. Tristeza, não. Melancolia.

No fim, os mártires da vida tinham partido. Os deuses, heróis e semideuses. Não mais vislumbraríamos aquela luz, talvez mais forte do que a do próprio sol e, ao mesmo tempo, mais negra que as trevas. Nem nomes. Nem datas. Apenas uma última decisão e um último suspiro como um grito de ajuda. E mesmo após tudo ter terminado, continuava a ser impossível juntar as peças daquele puzzle. Tinham deixado por todo o lado vestígios de uma vida que mal tinham tido oportunidade de viver. Tinham vivido o que dela puderam viver, dentro de uma caixa previamente talhada por um fatum quase mitológico, onde a única vida que lhes era permitida viver era aquela que viam em sonhos, nos seus restritos, perfeitos e inacreditáveis mundos de suaves fragrâncias e densas brumas, povoados por excêntricas criaturas. Mundo onde nos seria demasiado difícil distinguir a realidade da ilusão.

Após todas as suas impressionantes demonstrações de poder, regressavam de novo aos seus pequeninos mundos onde, ilusoriamente, se sentiam mais protegidos do que no mundo real onde vivem os simples mortais, aqueles que desprezam a beleza e a arte como modo de vida, alegando ao facto de «toda a arte ser completamente inútil» e de a beleza ser «superficial». […]

by Catarina A. Sousa (16 anos) in ‘Nyx’

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(e sim, esta parte do “livro” foi inspirada pelos 10 anos da morte do Kurt Cobain. Coincidiu precisamente com essa altura).

Para quem caiu aqui da paraquedas agora e não sabe o que raio se está a passar por estes lados, não se assustem! É apenas a nova série de domingo aqui no blog. A partir de agora, quem escreve no Joan of July aos domingos é a Catarina na mesma, mas aos 16 anos. Saibam mais aqui.

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