personal

O insuportável peso do ‘money-making shaming’

Sim, isto é uma espécie de rant como já não faço há meses.
Mas abateu-se sobre mim uma vontade incontrolável de deitar algo cá para fora, ou melhor, de expor algo. Já todos ouvimos falar de fat shaming e slut shamig (entre outros shamings desta vida) que consistem basicamente em fazer um grupo de pessoas sentir-se mal por uma característica sua.

O tipo de shaming de que vos falo hoje é o money-making shaming (termo cunhado por mim à falta de outro, já que não vejo ninguém a falar disto).

Perdoem-me a aparente falta de modéstia, mas não vou pedir-vos para me corrigirem se estiver errada, porque sei que não estou. Porque o sinto na pele e porque, por vezes, dou por mim justificar-me ad infinitum por escolhas que faço, por algo ligeiramente mais caro que compre ou por preços que dou a serviços/projectos meus.

Situação #1: quando compras algo caro e as pessoas te julgam

Quem nunca comprou um miminho para si, digamos uma carteira de marca, uns sapatos mais fancy, um telemóvel novo ou até mesmo uma viagem, apenas para alguém nos olhar com esta cara (abaixo) e perguntar:



“Isso é novo?”

 

“Sim, biatch, é novo, algum problema?”, apetece-me ripostar. Mas em vez disso, faço a minha melhor resting bitch face e profiro um solitário e simples:

– É.

Mas antes, alguns (poucos) anos atrás, a resposta mais comum era:

– Ah sim, mas estava em promoção.

A questão é: para quê justificar? Que se lixem as justificações! Andei a roubar? Não. Andei a traficar droga ou a enveredar por alguma actividade ilegal para atingir os meus fins? Não. Então ninguém tem nada que julgar! Todo o meu dinheiro é ganho com esforço e dedicação e se eu escolher gastá-lo em algo não têm seque que pensar nisso.

Situação #2: quando te pedem trabalho de graça

Outra não-novidade neste campo são as pessoas que pedem trabalho de graça a quem presta serviços criativos como design, fotografia e escrita.

Sim, pessoas que não conheço de lado nenhum já me pediram sessões fotográficas de graça, mas o pedido que mais me chocou recentemente foi outra pessoa que não conheço de lado nenhum me pedir para escrever no blog sobre um evento que estava a organizar e para o qual eu nem sequer fui convidada! Não é incomum o trabalho ser pago de outra forma que não com dinheiro. Neste caso, eu alegremente faria o post no blog SE fosse ao evento. Assim, até poderia fazer dois posts: um em género de notícia (no Facebook) antes do evento e uma review ou relato do evento depois. Mas não. O que me foi pedido foi que noticiasse o evento. Em troca, partilhariam o post no facebook da organização. ENA!! 😀

Problemas:

  1. O meu artigo ficaria indexado no Google para sempre;
  2. A partilha do meu artigo nas redes sociais deles seria efémera, como são todas as partilhas nas redes sociais. Obrigadinha.

Uma troca tem que ter SEMPRE um factor win-win, ou seja, ambos os lados têm que ganhar algo com a troca de serviços ou favores, quer seja dinheiro ou outra coisa qualquer em compensação. Neste caso, eu não ia ganhar nada.

Problema #3: não reconhecerem o valor do teu trabalho

Não consigo, neste momento, pensar em nada mais frustrante que isto. NADA.

Já algumas vezes, no trabalho, recebi emails a perguntar porque não disponibilizávamos o nosso produto de graça. Ohhh sim, claro, porque não? Realmente, que patetice pedirmos injustamente dinheiro às pessoas interessadas em comprar o nosso produto para que seja possível, já agora, manter a equipa que o criou e que é necessária para que continue a existir, funcionar e melhorar? Pffft… Somos pessoas horríveis.

A outra esfera da minha vida que pertence a esta situação peculiar é o Bloggers Camp e aqui vou ser ainda mais brutalmente honesta. Como parte do também ele honesto feedback dos participantes, o qual eu encorajo e aprecio, apercebi-me que – infelizmente – muita gente não entende o porquê de termos subido ligeiramente os preços dos bilhetes, por isso achei que fazia sentido explicar brevemente neste post e já vão perceber porquê.

  1. no ano passado tivemos uma série de despesas imprevistas, algo normal na organização de eventos e que não teria muito peso no orçamento se estivéssemos preparadas para elas. Este ano decidimos acrescentar uma margem a contar com essas despesas;
  2. ajustámos os preços também a contar com as despesas que já sabíamos que íamos ter;
  3. decidimos doar parte dos lucros (5€ por bilhete) a uma instituição de solidariedade. Como sabem, escolhemos a Operação Nariz Vermelho;
  4. e por fim – choquem-se – quisemos obter algum lucro no final, ao contrário do ano passado que foi quase “resvés”.

Obter lucro a partir de trabalho árduo que nos drena psicologicamente ao longo de meses (não só no dia do evento) e até fisicamente (no fim de semana do evento), que nos obriga a trabalhar horas e horas muito depois dos nossos trabalhos full-time (no meu caso e no da Cat) e trabalho de faculdade (no caso da Ana) terminarem não merece ser recompensado? Digam-me: vocês sentir-se-iam bem a dedicar horas e horas de trabalho em algo que não seria pago (exceptuando voluntariado, claro)? Conseguiam fazê-lo uma vez por ano (durante meses de organização, entendam) com a mesma motivação de ano para ano? Arrisco responder por vocês e dizer que não.

Conclusão

Como já me estou a alongar, o que quero que fique explícito é que isto de se ver com reprovação o facto de alguém obter lucro através do seu próprio trabalho tem que acabar. Tenho a certeza de que quem me está a ler defende que os estágios deviam ser pagos e que o trabalho precário é injusto e devia – de uma vez por todas – acabar. Então, não façamos juízos de valor e não tenhamos duplos critérios. Não assinemos petições contra grandes marcas de vestuário que se aproveitam de trabalhadores em situações de vida complicadas em países em desenvolvimento, mas ao mesmo tempo, condenando quem tenta ganhar a vida no nosso país com o seu próprio trabalho.

Trabalho não remunerado é trabalho não remunerado! Se o condenamos quando é por conta de outrem, um empresário em nome individual que tenha a sua própria empresa ou que, sei lá, organize eventos, deveria optar por fazê-lo gratuitamente?

A pergunta é de retórica. TODO o trabalho deveria ser pago.

12 Comments

  • Joana Sousa

    #1: YES! Apetece-me chinar alguém sempre que recebo um comentário desses. Sou meia unha de fome por isso é pouco comum comprar algo mais *txaran*, mas tira-me do sério que julguem os outros por fazerem o que querem com o seu próprio dinheiro -_-

    #2: LOLE. Pronto, é só. Essa do evento é de génio. Quanto ao resto, acho que é importante vermos em que patamar estamos dentro da indústria e por vezes nesse aspecto há quem se estique (e aqui estou a falar exclusivamente na perspectiva de cliente, porque todos os trabalhos criativos que já fiz foram por pura carolice, não remunerados), mas mesmo tendo isso em conta, ninguém tem o direito de exigir nada sem dar nada em troca, isso é só estúpido e abusador!

    #3: A sério? Uau. Mas sim, que escândalo, tirarem lucro do vosso trabalho, onde é que já se viu. Honestamente, esse é daquele tipo de coisas que não me cabe na cabeça, como é que alguém espera que as coisas aconteçam sem que as pessoas tirem algo de bom daí – é óbvio que se vocês têm toda a trabalheira que têm, têm que ser recompensadas por isso! Santa paciência…

    Moça, adoro os teus rants. Bota consciência no mundo! :p

    Jiji

  • Maria Gonçalves

    Não costumo comentar o teu blog mas sigo e hoje deparei-me com este post no Facebook e não pude deixar de dar uma palavrinha.
    Na minha opinião tens razão em tudo, mas acho que a culpa de ainda haver MUITA gente em muitas circunstâncias a achar que o trabalho dos outros pode ser feito de borla é de quem, com exatamente a mesma “profissão” o faz efetivamente de borla.
    Ora eu tenho um blog, acho que seria justo que publicidade a marcas fosse paga, principalmente quando nem dão produtos em troca, mas até mesmo com coisas em troca porque aqui ninguém se alimenta de cremes e perfumes que na maioria das vezes não nos interessam para nada e se fossemos sortear cada vez que os recebemos não fazíamos mais nada da vida a não ser fazer passatempos no blog. No entanto, no blog do lado alguém aceita publicar em troco de nada, ou em troco de uma lata de sumo, ou de um pacote de chupas. Isso vai fazer com que a nossa atitude pareça snob, pareça que estamos a achar que somos mais que os outros, e é por isso que continua a existir tanta gente a pedir coisas de borla, porque continua a existir outra tanta a fazê-lo de borla.

    Mas pior, conheço várias bloggers que passam a vida a queixar-se que o nosso trabalho devia ser valorizado mas depois são as primeiras a aceitar fazer 50 mil posts sobre uma coisa em troca de um produto para sortear no blog. Com essa atitude nunca mas nunca vamos chegar muito mais longe do que isto. Infelizmente.

    Um beijinho*

  • Liliana

    Ai concordo tanto contigo em tantos pontos deste post! Em primeiro lugar devo dizer que não achei o BC caro, achei que tinha um preço justo tendo em conta workshops, alojamento, alimentação, etc. Portanto, quem critica — sabemos que nem todos têm a mesma disponibilidade financeira — mas não entende o que está por detrás de organização de eventos.

    E em relação ao primeiro ponto é o que mais me chateia. Posso poupar dinheiro 11 meses por ano, decido comprar algo para mim e parece que todos caem em cima e mandam aquelas bocas de ‘estás rica, é?’, ‘hás-de me dizer onde trabalhas’, e por ai em diante! Not cool, people. Not cool!

    Então gostei muito deste post! <3

    #shame #gameofthronespower

    Glamour in a Bottle

  • Helena dos Santos Pereira

    Eu não recebo dinheiro com o meu blog e ainda estou a estudar, por isso a minha forma de ganhar algum (para além da mesada) é ajudar o meu pai quando ele tem mais trabalho. Obviamente que depois de ter o dinheiro o vou gastar no que bem me apetecer ou juntá-lo para investir em algo mais caro passado uns meses. Tal como tu, chego muitas vezes a sentir a necessidade de justificar o porquê de comprar algo mais caro ou até mesmo de esconder que tenho essa coisa para evitar que me julguem só porque usei o MEU dinheiro que, tal como disseste, foi ganho de forma honesta.
    Quanto aos outros itens, não tenho nada a relatar, mas compreendo que deva ser completamente frustrante que peçam as coisas de borla. Choca-me cada vez mais ainda haver pessoas assim.

    Lena’s Petals xx

  • lígia gomes

    A mim costuma ser devido às minhas viagens. “Deves ganhar muito bem!”, “Quantos dias de férias é que tens?!”…simplesmente organizo-me e poupo. Privo-me de muitas coisas para o conseguir fazer. Algo complicado de entender para as pessoas no geral.

    “…outra pessoa que não conheço de lado nenhum me pedir para escrever no blog sobre um evento que estava a organizar e para o qual eu nem sequer fui convidada!”

    Incrível!!!! A lata impressionante com que algumas pessoas nascem é inexplicável! Também tenho tido alguns contactos impressionantes e dignos de risota diária. O pior, é que realmente há pessoas que aceitam e não entendem que se estão a aproveitar delas.

  • Juliana Ferreira

    É engraçado que eu ouço mais isso da minha mãe (e o resto da família também tem as suas ideias). Eu também sou designer por conta própria e ela acha que eu só brinco no pc, não faço nada o dia todo. E quando vou para fora uns dias pergunta-me se isso de brincar no computador deixou-me rica. Fico sem perceber…

    Tem tudo haver com a mentalidade, parece-me. As empresas/clientes devem achar mais ou menos como a minha mãe. Jogamos uns joguinhos durante a tarde, olhamos para aquilo 2 minutos e voilá, aparece o trabalho. Vão lá eles pagarem-nos por “2 minutinhos”.

    É preciso ter personalidade e não ficar-se acanhado nesta área, porque não é fácil.

  • Alda Moreira

    Comigo é as viagens…Mas como é que fazes?!!! “Marco a viagem e pago-a, é assim que faço”. Ah deves estar a nadar em dinheiro!!!” Tu tens dois filhos, fazendo as contas deves gastar mais com eles num ano do que eu gasto nas viagens que faço por ano.Acho que na verdade tu é que és rica. Pronto, sou assim simpatica.os quase 40 permitem-me 🙂

  • Liliana Ferreira

    Tenho de partilhar isto.
    Ele é o favor para a amiga, ele é o como fazes isso, ele é o dá um jeitinho.. E é o “escrevemos o artigo para si e só tem de publicar no blog”, em contrapartida partilhamos numa página com milhentos seguidores provavelmente comprados, que tal? É que é na hora que aceito! (só que não!). E acho que poderia continuar por aqui fora, que já lá vai algum tempo de blog… Mas não vale a pena !

    Ainda bem que não sou a única a partilhar este tipo de opiniões.

    Beijinhos

  • Diana Raquel Oliveira

    subscrevo ja trabalhei de graça sei o que é e sei as dificuldades que tive na altura pareceu me bem pois sempre ficava com a experiência, mas as pessoas abusam. Já tive pedidos para serviços gráficos para serem feitos de graça em troca (a típica frase) autorizo que uses o trabalho no teu portfolio, yes, em todas as empresas que tive até agora o portfolio nunca contou para nada, contava sim o que eu poderia fazer!
    Concordo com tudo o que disseste!
    Quanto ao bloggers camp acho que fazes todo o sentido tirarem lucro e para o ano espero ir pela primeira vez 😀

    Gostei merece ser partilhado 😉
    beijo

  • Fabia

    Há muita personagem por aí que adora condenar os outros pela mala de marca ou pelos sapatos e comentar que deve andar a nadar em dinheiro (curiosamente vejo-o acontecer mais a mulheres do que a homens). Não só ninguém tem nada a ver com o que outrem compra ou deixa de comprar como é uma falta de tudo condenar uma pessoa por se mimar. Um pessoa deve-se mimar, não há qualquer shame nisso, e não percebo qual é a dificuldade da sociedade perceber este pequeno conceito.
    Já o trabalho não pago, é demais. Eu estudei Artes e embora não trabalhe na área de pintura/design/etc. sempre ouvi aquela piada “ah e tal depois dás-me um dos teus desenhos/trabalhos”, a mesma piada continuou quando me formei em maquilhagem “depois tens de me maquilhar” como se o esforço do meu trabalho fosse 0. Já para não falar do material que custa dinheiro. É uma falta de respeito.

  • Ana Burmester Baptista

    Pois sim (digo eu, qual Fenix ainda não renascida das cinzas, ma a treinar para isso), para variar o teu rant for spot on!! Ando afastada “disto” há uns meses mas continuo com a mesma sensação: tu ganhares dinheiro é mau, porque não és os outros, porque os outros podem ganhar para depois te dizerem que até fazem dinheiro. O fígado das pessoas é mesmo mau, não é? The hell with them.
    Outra coisa, posso fazer uma sugestão pacífica? Menos GIF’s nos posts… baralha menos a leitura. Talvez um que seja “mais forte” em vez de vários fraquinhos. 😉 Sugestão, boa? Beijinhos!

  • Maria

    Ohhhh como eu te compreendo. Eu também já fui (e admito que às vezes ainda faço isso) do tipo de justificar algumas compras devido a comentários. Mas pensando que isto só vem de quem tem valentes dores de cotovelo e de quem acha que se ele não tem dinheiro para comprar chocolate de marca mais niguém deveria ter, não vale mesmo a pena responder-lhes. Primeiro, o dinheiro é nosso e a ninguém diz respeito o que nos fazemos com ele. E depois, se não estamos a fazer nada de ilegal, porque não oferecer um miminho a nós próprios? Não há nada melhor para aumentar o nosso estado de espírito do que isto.

    Ohhh essa de quererem publicidade a um evento sem nada em troca é lindo. É como pedirem a uma revista ou journal para incorporar os seus anúncios, sem lhes pagar por isso. Quer seja para arranjar um cano numa casa, operar alguém ou fazer uma sessão fotográfica, são todos serviços, e são todos dignos de serem pagos para serem prestados. Honestamente, não sei o que vai na cabeça das pessoas. É talvez mais uma cena de double-standard, está visto.

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