Hoje despedi-me*

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Escrevo-vos este post num misto de entusiasmo e nostalgia, uma combinação algo bizarra. Alguns de vocês já saberão que o fiz, para outros será uma novidade. De qualquer modo, vou começar uma nova fase da minha vida – totalmente nova – e queria partilhar a minha história e o que vou fazer nos próximos tempos com vocês.

* Mas antes uma nota: não me despedi hoje (fez ontem duas semanas, na verdade, embora só tenha deixado de trabalhar na passada sexta-feira), mas achei que o título ia bem com este post (“Hoje despedi a minha empregada“) e este (“Hoje despedi a minha nutricionista“). E pronto, o drama termina no título. Se vieram aqui à procura de uma das minhas Histórias de Terror Laborais, desenganem-se. 🙂

Uma breve cronologia deste meu último trabalho

Eu trabalhava desde 2013 na mesma empresa. No final de 2016 essa empresa juntou-se a outra e passei a ser uma espécie de dupla agente, que trabalha para as duas. Pode-se dizer que estava quase há cinco anos na mesma empresa e há mais de um ano e meio na segunda, mas eu sempre vi esta experiência de trabalho como um contínuo. Portanto, vamos manter assim: a trabalhar em marketing, comunicação, escrita e coordenação de conteúdos na área de finanças pessoais há quase cinco anos.

Foto: Luisa Starling

Porque me despedi?

Não houve só um factor e muita coisa pesou nesta decisão. Como certamente poderão compreender não vou falar de tudo tudooo, mas posso falar-vos de três razões de peso que me ajudaram a tomar esta decisão difícil:

Tempo e localização

Todos os dias tinha um percurso que, ao todo, durava cerca de 1h40 ida e volta, casa-trabalho. No primeiro ano em que trabalhei em Miraflores foi tranquilo, mas neste – o segundo ano – estava exausta e só queria estar mais perto de casa. Trabalhar longe e depender de transportes deixou-me sem energia nem vontade de ir ao ginásio, antes ou depois do trabalho, algo que não me fez bem. Mais tarde ou mais cedo, sabia que precisaria de mudar de trabalho para ficar mais perto de casa e recuperar qualidade de vida. Isto não quer dizer que não gostasse do meu trabalho, atenção, só não gostava – MESMO – da saga da deslocação. Com o tempo e energia que perdia em transportes reduzi gradualmente o meu entusiasmo e entrega a certas paixões e hobbies meus. A minha fotografia, por exemplo, sofreu grandemente este ano.

Numa época em que temos cada vez mais dificuldade em equilibrar o trabalho e a vida pessoal, e encaixar tudo nas vinte e quatro horas do dia, não será surpresa que, segundo o Instituto Nacional de Estatística britânico, a felicidade pareça diminuir a cada quilómetro de deslocação para trabalhar”.

– Meik Wiking em ‘O Livro do Lykke’

Se há coisa de que não vou ter saudades é do 750 de manhã e do 748 (+ bus ou + metro) ao fim da tarde! Quem anda de transportes (especialmente no 750) vai entender-me.

Precisava de um novo desafio

Estar tanto tempo a trabalhar na mesma área fez-me pensar se realmente me adaptaria a outro trabalho, a outra área e modo de trabalhar. Também pensei se, daqui a uns anos, caso não saísse já, outras empresas me quereriam como colaboradora. Estar onde estava era bom, mas também pensei de um ponto de vista externo e cheguei à conclusão de que precisava de uma nova experiência no meu CV, puramente do ponto de vista de construção de carreira.

O ‘annus horribilis’ teve um peso nesta mudança

Eu falei-vos da primeira metade do meu ano neste post, mas resumidamente, foi terrível. Quase tudo corria mal… um trabalho freelancer perdido (e chateei-me a sério), problemas nas Finanças, a minha Zelda deixou-nos… Enfim… faltam-me as palavras para descrever o quão mau foi. Até há muito pouco tempo senti que nem tinha feito o luto como devia ser, embora até tenha tirado dois dias (que não chegaram) para o fazer.

Estava profundamente infeliz, sem energia e sem vontade nenhuma de pegar nos meus projectos. Dedicar-me ao Bloggers Camp foi um quase-milagre no meio disto tudo.

foto: Margarida Pestana

Eu via-me ao espelho e não me reconhecia muito bem. Eu dava por mim em situações de convívio a estranhar quem estava a ser; tão contida, tão fora de mim sempre a desejar estar noutro lugar qualquer.

Soube que tinha que mudar TUDO. Fazer um reset. E isso implicaria mudar de emprego.

Mais uma vez, não por não gostar do que fazia ou das pessoas com quem trabalhava, mas porque a mudança começaria por tratar de mim e passar mais tempo com as minhas pessoas.Ter um novo desafio profissional, ainda por cima, mais perto de casa, ia ajudar-me a encarrilhar o resto. Sabia que tinha de começar por aí, por mais que isso custasse.

Foi difícil abandonar parte da vida que tão bem conhecia

Quem tem um emprego tradicional a full-time sabe bem o espaço que ocupa nas nossas vidas. Em muitos casos, passamos a maioria dos nossos dias nos nossos empregos ou, pelo menos, uma grande fatia do dia. Os nosso colegas de trabalho tornam-se nossos amigos, às vezes praticamente família, os espaços de trabalho tornam-se a nossa casa fora de casa, cultivamos rituais só nossos, fortes laços de amizade e de cumplicidade. Quanto mais tempo se passa numa empresa mais aprofundados se tornam esses laços. Se acham que tomei esta decisão de ânimo leve, desenganem-se novamente.
Despedir-me foi das coisas mais difíceis que já fiz. Acredito piamente que se estivesse profundamente infeliz no trabalho e com aquelas pessoas teria sido bem mais fácil, mas é precisamente na tomada de decisões difíceis que, por outro lado, podemos verdadeiramente testar a nossa coragem e conhecer-nos mais a fundo.

E agora?…

Agora vou dedicar-me a 100% ao blog e ser influencer.

Ahahahah não. Mas vou ter mais tempo para escrever no blog, isso é verdade.

De qualquer modo, aqui vai: não me despedi só porque sim. Não estou indecisa sobre o que quero fazer e não me sinto minimamente perdida ou sem rumo. Pelo contrário! Tenho um novo caminho a percorrer. Tenho um novo trabalho que vou começar no início de Julho. Vai ser em moldes diferentes daquilo a que estou habituada ou que é convencional, mas isso é parte do motivo pelo qual o aceitei e que me faz estar tão entusiasmada com ele.

Gostariam de saber mais sobre o meu novo trabalho noutro post? 🙂

Até lá vou estar livre durante duas semanas para desligar da minha fase anterior e para me alinhar a pensar na próxima. Achei importante e necessário ter algum tempo livre entre os dois trabalhos (o anterior e o novo). Quero pôr as minhas ideias e vida em ordem antes de começar.

Acham bem? Fariam o mesmo?

Foto: Susana Cristina

Conclusão

Nem todas as histórias de auto-despedimento têm um fundo dramático nem todas ocorrem porque o protagonista já não aguentava mais. Às vezes o auto-despedimento é das coisas mais difíceis que já fizemos porque não rompemos com um sítio e pessoas que já não podíamos ver à frente; pelo contrário. A dificuldade reside em fazê-lo quando até se está bem, mas se sabe que é o melhor que podemos fazer pelo nosso futuro e progressão de carreira. Não devemos sacrificar a nossa ambição em detrimento de relações de amizade, por exemplo. Quem tiver que continuar na nossa vida, continuará mesmo que já não nos veja todos os dias. 🙂

To take a new step, you always have to overcome something inside you.

– Susan Smit

 

 

21 Comments

  1. Carolina Sofia says:

    É horrível ter de fazer essas horas todas para poder trabalhar. Acordo cedo todos os dias, faço 2 horas de viagem e chego finalmente ao trabalho. Felizmente, foi estágio e em julho termino, mas é sempre muito complicado. Deixei de fazer reeducação alimentar, ou de fazer caminhadas (ir ao ginásio nem se fala) pois chego todos os dias às 20 horas a casa.

    Espero que esta nova fase corra bem e que consigas sentir-te bem melhor. Beijinhos 😀

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Como entendo isso, Carolina. Foi o que acabou por acontecer comigo, mas estou a voltar às rotinas saudáveis agora. 🙂
      Ainda bem que já acabou esse estágio. Fica uma aprendizagem! Assim sabes o que custo e para qualquer trabalho que procures, já vais ter como critério ser a uma distância razoável de casa. 😀 Beijinhos*

  2. Catarina França says:

    Catarina, louvo a tua coragem de te ouvires e desejo-te sucesso.

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Muito obrigada, querida Catarina! Um beijinho*

  3. Micaela says:

    Também sinto-me cansada e, desculpa a expressão, “farta” da rotina do meu trabalho. Não porque ele fica longe de casa, antes pelo contrário. Trabalho em atividades de enriquecimento curricular com crianças dos 6 aos 10 anos e, porque hoje em dia só uma minoria tem valores definidos e sabe o que significa ter respeito pelo outro, acabo o dia psicologicamente esgotada. Infelizmente ainda não tive determinação para mudar.

    Felicidades para o novo emprego. Beijinhos.

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Oh Micaela, lamento imenso que te sintas assim. 🙁 Parece-me mais um desgaste com a área em si, no teu caso. Espero que consigas mudar o rumo da tua vida profissional para que te sintas mais feliz e realizada. Não te esqueças de que passamos uma grande parte da vida a trabalhar e que, por isso, faz todo o sentido procurarmos algo que nos faz mais feliz. Não é vaidade nem egoísmo. Força nisso. :)*
      Beijinhos

  4. Vânia Duarte says:

    “E AGORA?…
    Agora vou dedicar-me a 100% ao blog e ser influencer.” ahahahahah és a maior 🙂 É um orgulho ver-te voar e abraçares um novo desafio, acima de tudo porque te vejo mesmo mesmo feliz e no final só isso importa.

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Ahahaha já sabes como é, não resisti. 😛
      Obrigada, minha Grande Blogger favorita de todo o mundo blogosférico! Deste-me muita força e apoio nisto, não me vou esquecer. :*

  5. JU VIBES says:

    Aplaudo a coragem e acredito que tenha sido difícil tomar a decisão, mas tal como já aconteceu comigo, são essas decisões que nos conduzem a grandes desafios!

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Bastante difícil, mas claro, tens razão: depois da decisão difícil virão novos desafios! 😀

  6. Guida Afonso says:

    Super bem! Fiz o mesmo em Janeiro. Sinto-me outra 😍

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Uau!! Muito bem! Fico super feliz de perceber (nem que seja por esse comentário) que sentes que tomaste a decisão certa. 🙂

  7. Leonor says:

    👏👏👏 Se certeza serás um grande apoio para quem esteja na dúvida de tomar uma decisão do género! Prowd (if i may)

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Oh, espero poder ajudar de alguma forma. Como me ajudaste a mim, baby. Obrigada. <3 É, de facto, muito difícil, mas faz parte da vida e a vida é feita de vários tipos de dificuldades e provações, não é verdade? 🙂

  8. Catarina says:

    Como a compreendo… Trabalho em Miraflores, demoro o mesmo tempo em transportes e conheço perfeitamente o 750…de maneira que sinto muito o que retrata neste post! Parabéns pela coragem e desejo que corra tudo bem nesta nova fase! Muita luz

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Obrigada, Catarina! Sim, não é nada fácil, especialmente para quem vai de transportes (e de longe). Desejo-lhe também o melhor e muito sucesso! :)*

  9. Lisandra Soares says:

    Certamente faria o mesmo porque já o fiz! Acho muito importante estarmos preparadas para esse passo, ver realmente o que nos move para a frente e o que nos retém. É mesmo difícil…
    No entanto, é um alívio de tudo. Faz-se uma limpeza à nossa vida, faz parte 🙂
    Um enorme beijinho!

    1. Catarina Alves de Sousa says:

      Explicaste tudo tão bem, Lisandra, nem acrescento nada! Às vezes o que nos retém vem do medo da mudança e isso tem mesmo que ser contrariado. Eu sinto-me bem por ter conseguido ver para além disso, por mais difícil que tenha sido. Um beijinho grande e obrigada por resumires tão bem o que eu queria dizer com este post enorme! Ahahahah

  10. Andreia Moita says:

    Há coisas que procuramos para nós e que só estas mudanças nos podem proporcionar. Parabéns pela tua coragem, admiro-te e és um exemplo. Em vários aspectos, mas sempre que te ouço falar tão desprendida destas questões relacionadas com o emprego, sinto-me sempre mais motivada a fazer alguma coisa.
    Desejo-te toda a sorte e realização nesta nova fase!

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