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A mudança para a casa nova e as despedidas da antiga

Nunca contei isto a ninguém, mas pelo meio das preocupações normais sobre o meu futuro e até sobre o dia a dia, volta e meia tenho momentos que só consigo comparar ao sentimento que se apodera de nós quando acordamos de um pesadelo e nos apercebemos de que não era real. São momentos resultantes de uma mão cheia de alívio misturados com uma pitada de “Eureka!”. Normalmente chegam na forma de uma frase muito simples que se cria dentro do meu córtex: “Vai ficar tudo bem”, seguida por um pequeno sorriso involuntário. O sentimento de bem-estar que me invade a seguir a esta espécie de epifania é incrivelmente tranquilizante e sabe bem, muito bem.

Quem me segue no Instagram sabe que mudei de casa no sábado passado. Aqui no blog já tinha falado da casa nova em vários posts.
E não, não senti instantaneamente o meu momento de “vai ficar tudo bem”.

Eu não queria propriamente mudar de casa. Estava bem onde estava, com a pequena família que construí cá em Lisboa com o meu namorado e os nossos dois gatos. A casa era pequenina, sim, mas muito gira e acolhedora, já para não dizer “bem localizada” (que era!). Mas surgiu a oportunidade de mudarmos para uma casa muito maior e bem perto da casa pequena (uns escassos 800m as separam) e, à semelhança do que aconteceu com a primeira, de a remodelar e decorar ao nosso gosto. Era, portanto, uma oferta irrecusável.

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Ainda assim, o processo de mudança foi complicado.

Primeiro, porque até poucos dias antes do dia D (aka. o dia da mudança oficial), não sentia que aquela – a casa nova – fosse a minha casa, o meu lar. Depois, porque não conseguia imaginar a minha vida e as minhas rotinas naquela casa. Eu e ela não tínhamos memórias juntas, os seus cantos não evocavam lembranças imediatas de momentos estupidamente bem passados, seja a dois ou com os nossos amigos. Achava-a pretensiosa com o seu chão impecável, toda ela ainda brilhante e a cheirar a novo, enorme e convencida da sua beleza como se se achasse superior e melhor que a minha pequenina casa.
Sim, eu sei que penso demasiado e que faço muitos filmes.

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Para além disso, estava muito preocupada com a forma como os meus gatos iriam reagir à mudança, uma vez que eles odeiam de morte qualquer mudança na vida deles, ainda que pequena como, por exemplo, a caixa da areia. Olhava principalmente para o Loki na casa pequena, tão feliz, tão à vontade nos seus espaços, tão senhor do sofá, do corredor e dos pés da nossa cama, que não o imaginava a sentir-se tão em casa em mais sítio nenhum.
Mas já lá vamos.

Quando comecei a pensar em escrever este texto, estava deitada na minha cama, na casa pequena na noite da véspera da mudança. Há um sentimento muito dramático que se apodera de nós quando nos apercebemos que estamos a vivenciar as nossas últimas horas na nossa casa. Estava num misto de tristeza e saudade precoce, misturadas com algum entusiasmo pelo que o dia seguinte me reservaria (para além de extremo cansaço).

Agora, neste preciso momento em que estou a acabar este texto (sim, que esta semana revelou-se muito preenchida e não o consegui escrever de seguida), estou a completar uma semana nesta casa. Já muitos caixotes foram arrumados e desfeitos, outros aguardam pacientemente, mas todos os essenciais já estão nos devidos lugares.

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Não é giro pensar que tanta coisa pode mudar numa semana? Não posso dizer que já não sinta um pequenino aperto quando entro na casa antiga para lá ir buscar qualquer coisa que ficou para trás, ou quando revejo fotos da casa (e de nós na casa), mas tenho plena consciência que, de dia para dia, tenho vindo a sentir esta casa nova como a minha casa. Aos poucos. Já vou formando os meus novos cantos e refúgios como quem volta a erguer um muro derrubado. E à medida que o tempo passa, por pouco que seja, vão-se formando as primeiras memórias.

Um dia, talvez daqui a um ano, já vou conseguir olhar para cada detalhe, parede e canto da casa e lembrar-me de tudo de bom que a casa viveu e nós nela.

Sinto um cheiro de mudança no ar. E não me refiro só à mudança de casa. A mudança pode ser uma coisa muito boa e não tem que ser necessariamente radical; mudança pode até ser no sentido de renovação. E para mostrar que estou mais que receptiva, até mudei algo em mim mesma: cortei (muito) cabelo.

Casa nova, cabelo novo, vida nova? Não, não acredito que a minha vida vá mudar radicalmente nos próximos tempos, mas se mudar, bem, já que estou a passar por tanta coisa nova, porque não? 😉 Sinto que estou mais aberta que nunca àquilo que esta vida me possa trazer.

7 Comments

  • Marta Chan

    Esse mix de sentimentos são naturais quando estamos acostumados algo. A tua casa antiga era o teu ninho, onde te sentias bem, a tua zona de conforto. Estás agora no processo de mudança e isso demora dias e dias até que finalmente sintas “Este é o meu lar”. Mas aos poucos, quando vires as tuas fotos penduradas nas paredes, os teus livros arrumadinhos, a tralha que é tão tu espalhada pela casa vais ver que afinal até estás melhor na casa nova 😀

    E heyyy! Só tens as varandas mais bacanas de Lisboa, lembra-te que há pessoas que nem uma amostra de varanda têm 😛

    Resta-me desejar-vos toda a felicidade na casa nova, sinto que coisas muito boas vão acontecer por ai!

  • m-M

    Vou passar pelo mesmo. Finalizamos a compra da nossa casa na passada 5ª feira 🙂

    Sei que as arrumações e mudanças “físicas” vão custar, mas tenho-as remetido para o fundo da minha mente, exatamente por não ouvir o “vai ficar tudo bem”… sei que me compreendes.

    O Snape também é uma grande preocupação nossa, mas ele sim, acredito que vá ficar bem, em pouco tempo 🙂

    (Espero por ver esse novo look)

    Beijinho,

  • Cris Loureiro

    Uma casa é apenas uma construção que só se torna habitação connosco lá dentro e só passa a lar quando nela deixamos pedacinhos de nós e do nosso amor.
    Essa será tão tua casa quanto todas as outras onde decidires vir a morar 😉

    Beijinhos e felicidades no novo ninho.

  • Analog girl

    Gosto de pensar que quando provocamos uma mudança, que movimentamos e desbloqueamos energias e vontades, e depois tudo flui de outra forma. Que venham coisas novas, ou não, mas essencialmente, que te mantenhas aberta a tudo de novo que pode surgir pela frente. 🙂

  • Maria

    Bem isso é que foi uma oportunidade excelente; tão perto mesmo.
    Eu também estou em vias de mudar de casa, bem mais sair de onde estou do que mudar de casa mesmo, e também me sinto assim. Emoção por ir para um espaço novo e por ir ter a oportunidade de criar novas memórias; mas sempre aquele sentimento de ir-se deixar a nossa casinha, o nosso canto, o nosso conforto para trás. Espero que a nova casa vos venha a proporcionar óptimas memórias 🙂

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