personal

Casa = Condomínio Sentimental

Tenho a certeza de que – mesmo sem me conhecer de lado nenhum – qualquer crente em signos identificaria com facilidade que este texto foi escrito por um nativo de Caranguejo.

Quando era mais nova, recusava as características-base do meu signo. De acordo com a Astrologia, os nativos do meu signo procuram segurança, são muito ligados à família e ao lar.” Esta última parte soava-me tão estranha na altura… Agora sinto-a como uma parte indivisível do meu ser.

Queria eu, do auge da minha arrogância juvenil, assumir-me como uma criatura que vivia ao sabor do vento, que pousava em qualquer pousio que lhe chamasse a atenção, capaz de deixar tudo e todos para trás. Nessa altura, ainda estava longe de saber que casa não é necessariamente em lugar físico, mas que sendo-o também, seria algo que desejaria a vida toda.

Quando a vida me trocou as voltas no final de 2019, creio que o que mais me chocou foi a perda do lar. O lar, para além do lugar físico, é um conjunto de materiais, artefactos, rotinas e memórias que construímos, sozinhos ou com outra(s) pessoa(s). No seu aspecto físico, um lar é um lugar composto por paredes e divisões que, só de olharmos para elas vazias, conseguimos encher de memórias que lá vivemos com quem por lá passou.

E é por isso que um sítio que nos fez tão felizes pode, a qualquer momento, passar a ser uma fonte de tristeza e de recordação de perda. Também aprendi isso. Paralelamente, aprendi também a importância de deixar ir. Um sítio onde fomos outrora felizes com alguém, assume uma identidade diferente noutra fase da nossa vida. Os lugares e as pessoas estão intrinsecamente ligados, sabiam? Noutra fase das nossas vidas, os sítios a que chamámos casa tornam-se quase estranhos, tal como as pessoas que já não habitam o nosso condomínio sentimental.

Será só comigo que isto acontece? Sinto muita estranheza quando penso em divisões e corredores que percorri milhares de vezes na minha vida e que, hoje em dia, parecem uma memória quase tão distante como uma vida passada. Se nunca passaram por nada semelhante, imaginem a vossa escola primária, básica, secundária, o que quiserem. Familiar e, ao mesmo tempo, tão distante. Acham que esta analogia anda lá perto?

Até muito recentemente na minha vida (digamos…er… 2020), não concebia viver noutro sítio que não no centro da cidade. Bem, com excepção daquelas minhas fantasias em que vivo numa floresta, claro. Toda a minha procura de casa pós-separação teve como foco continuar a viver o mais perto possível do centro da cidade. Perto do metro, do trabalho, dos sítios que já conhecia. No fundo, não queria perder a pouco familiaridade que me restava à vida como a conhecia há já tanto tempo.

Faz sentido?

Após quase quatro meses a morar num T2 na Pontinha, que aluguei sozinha para viver com os meus dois gatos – Loki e Skadi -, eu e o meu namorado alugámos uma casa juntos. Antes disso e antes da Pontinha, já tinha vivido com ele para os lados de Sintra durante uns 2 meses. Aí, aprendi a navegar a vida longe do centro e, quando mudei para a Pontinha cedi finalmente e comprei um carro. Voltando à casa que alugámos juntos e onde vivemos actualmente.

Depois de muitos debates, conversas longas e listas de pros e contras, decidi confiar. Não só nele, mas naquilo que a vida tinha reservado para mim. E que, se calhar, nem tudo passava pelo centro da cidade.

A casa que alugámos, esta de onde vos escrevo, situa-se em Cascais, mas não é ao pé da praia. Tem árvores ao lado, muitos animais e uma grande zona onde passeio e consigo esquecer-me de que não estou exactamente no campo. Quando mudei para cá, não sabia que isto existia, achei que tinha aberto mão de um dos meus requisitos para mudar de casa, mas como também não tive nada disso na Pontinha, não me pareceu justo fincar pé neste capricho. Mas eis que a vida (o karma?) me recompensou e me presenteou com estes arredores.

Hoje em dia, quase um ano depois de virmos habitar esta casa, olho-a com tanto amor… Ainda não é a nossa casa no sentido de nos pertencer, mas é a nossa casa no sentido em que a enchemos juntos: de memórias, de gatos, de amigos em serões que não vamos esquecer durante muitos muitos anos; de música, de conversas boas, de risos, de emoções de todos os tipos, mas, acima de tudo, de muito amor.

E não esquecer também da mobília; ainda hoje me espanta e fascina termos conseguido conjugar tão bem o espólio de duas vidas tão diferentes cruzadas e juntas tão de repente.

Em pouquíssimo tempo, já tudo nesta casa tem memórias agarradas. Na sala, o gira-discos vintage que ele me ofereceu no Natal, a tocar The Pogues enquanto escrevo isto. Nem quero saber se a Fairytale of New York é uma música de Natal; parece-me perfeita em qualquer altura do ano. Do meu lado esquerdo está uma garrafa de vidro com fairy lights roxas que ele encomendou porque é a minha cor favorita e porque recentemente desenvolvi uma obsessão por luzinhas dentro de garrafas de vidro (maioritariamente de Whiskey). No tecto, o candeeiro que ele fez para mim com um galho de uma árvore que apanhámos numa caminhada no terreno em frente à antiga casa dele. Os nossos quatro gatos dormem à minha frente, espalhados pela sala enquanto escrevo. 

Lá fora, as folhas do limoeiro dançam ao sabor do vento, sente-se o aroma da alfazema no ar, a nossa pequena hortinha cresce e a casinha de madeira que ele construiu para os pássaros está cheia de comida e água para os seus inquilinos.

Em cima, o terraço está iluminado de duas fileiras de pequenas luzinhas (eu disse que tenho uma obsessão), já temos um guarda-sol, cadeiras e, em breve, terá uma pérgula.

Parece idílico, mas não é. É a vida real. Tudo porque arrisquei sair da minha zona de conforto. Se a minha casa é perfeita? Não. Se a minha vida é perfeita? Também não. No entanto, nunca (durante a minha vida adulta) esteve tão perto desta definição.

Hoje faz 2 anos que nos conhecemos e estou perplexa ao rever (em fotografia e em memória) tudo aquilo que já vivemos até agora.

2 Comments

  • Manuel Nogueira

    Da maneira como falas do rapaz dessa história parece alguém interessante… Vê lá se me apresentas um dia. De qualquer forma parece-me alguém que é muito feliz contigo e que está anter tanta sorte na vida como a que tu descreves, digo eu. Parece alguém que te ama imenso e que tenta fazer tudo para te conseguir ajudar no que puder para que consigas alcançar tudo o que precisas, nota que não disse “dar-te o que precisas” porque já te conheço e sei que não precisas de ninguém para chegares onde queres. Mas já pensaste que se calhar ele precisa de ti, só não gosta é de o dizer?

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