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O mito das resoluções de ano novo: parvoíce ou esperança?

Oscilo frequentemente entre desejar ardentemente a chegada de um novo ano como se se tratasse de uma folha em branco e, por outro lado, a achar que é uma parvoíce fazê-lo, pois nada vai mudar radicalmente apenas com a chegada de um novo ano.

Com certeza não serão estranhos às afamadas resoluções de ano novo, aquelas promessas/objectivos que formulamos sempre que um novo ano se aproxima. Não sei bem quando é que nasceu a crença de que um novo ano trará algo novo, mas suspeito que tenha sido algures em tempos muito antigos.

Porque é que fazer resoluções de Ano Novo é estúpido

Não vou ser hipócrita: eu fi-las muitas vezes. Na verdade, ainda não decidi se não as farei novamente para o início de 2019. Até acho que podem trazer muitas vantagens, mas em essência, com a chegada de um novo ano, não haverá uma interrupçao abrupta com o ano anterior.

Não é segredo que este ano, 2018, foi horrível para mim. Já escrevi sobre isso aqui e, agora em Dezembro, quando eu achava que não podia piorar mais, eis que o Universo provou que estava enganada.

Termino este ano algo triste e desanimada, mas com esperança de que algo mude em 2019. Por outro lado, não será meio infantil ver num novo ano uma folha em branco quando, na prática, tudo num ano novo acontece com continuidade do anterior?

Nesse sentido, de que vale acharmos que subitamente vamos acordar no dia 1 de Janeiro com vontade de ir a correr para o ginásio ou de ler mais livros? Também não vamos acordar com mais capacidade de sair do emprego de que já não gostávamos no ano passado, certamente.


Então, o que muda de um ano para o outro? Nada. A única coisa que faz “reset” é o próprio ano. Demos mais uma volta ao sol, a contagem dos meses recomeça por Janeiro.

Porque é que fazer resoluções de Ano Novo é bom

Porque, caramba, dá-nos esperança! No fundo, sabemos que a continuidade das coisas é inevitável, mas isso não nos impede de sonhar e de depositar esperanças em que aquela folha em branco possa ser uma realidade.

Se queremos acreditar que temos uma nova hipótese de mudarmos aquilo de que não gostamos nas nossas vidas, então porque não fazer as resoluções.

Mais vale falhar do que não tentar. Esta é uma das máximas pelas quais me rejo, e isso não vai – tal como o ano – subitamente mudar agora só porque 2018 me correu tão mal.

Mais vale falhar do que não tentar.

Infelizmente, nada daquilo que me aconteceu de pior em 2018 estava dentro do meu controlo e isso – também infelizmente – pode acontecer-nos, mandando-nos abaixo e fazendo com que mandemos as resoluções de Ano Novo pela janela, isto quando não as mandamos para um certo sítio.

Conclusão: os ciclos da natureza e o signficado de luz e trevas

Seja como for, o final de um ano é sempre uma altura de grande reflexão sobre o que passou e o que estará para vir e, como não conseguimos fazer futurologia, a única coisa que podemos fazer é tentar influenciar, de alguma forma, esse futuro com as nossas decisões.

Por outro lado, vou sempre defender também que as resoluções podem ser feitas em qualquer altura do ano. Nunca é demasiado tarde para mudarmos o que quer que seja, desde que o poder de mudar esteja efectivamente do nosso lado. Não precisam de esperar por Janeiro para voltarem ao ginásio. Não precisam de um novo ano para nada, mas se este servir como desculpa para melhorarem algo, que seja!

Tenho andado a ler um livro que me faz reflectir – e muito – sobre a natureza e, neste caso, os ciclos de renovação. O livro em questão é o Anam Cara: A Book of Celtic Wisdom, de John O’Donohue. Lá, o autor relata que os antigos Celtas viam na passagem da escuridão à luz um equilíbrio perfeito e ancestral, que vem desde a nossa própria passagem das trevas (confortáveis) do ventre da nossa mãe, à luz do mundo e da vida.

A própria noite, é a altura em que toda a natureza descansa da exposição e da luminosidade do dia, enquanto se renova e regenera para, na manhã seguinte, despertar em pleno.

Vou deixar-vos uma passagem da parte do livro em que o autor fala desta relação com a noite e o dia:

“The world rests in the night. Trees, mountains, fields and faces are released from the prison of shape and the burden of exposure. Each thing creeps back into its own nature within the shelter of the dark. Darkness is the ancient womb. Night-time is womb-time. Our souls come out to play. The darkness absolves everything; the struggle for identity and impression fall away. We rest in the night. The dawn is a refreshing time, a time of possibility and promise.

“All the elements of nature: stones, fields, rivers and animals are suddenly there anew in the fresh dawn light. Just as darkness brings rest and release, so the dawn brings awakening and renewal. In our mediocrity and distraction, we forget that we are privileged to live in a wondrous universe. Each day, the dawn unveils the mystery of this universe. Dawn is the ultimate surprise; it awakens us to the immense ‘thereness’ of nature.”

É assim que vou encarar o novo ano.

“It is strange to be here. The mystery never leaves you alone. Behind your image, below your words, above your thoughts, the silence of another world awaits.”

– John O’Donohue, Anam Cara: The Book of Celtic Wisdom

Espero que tenham gostado desta reflexão.

Agora, adorava conhecer o vosso ponto de vista sobre as resoluções de ano novo. Acham que valem a pena? Fazem-nas?

4 Comments

  • Lucie Lu

    Fazia sempre megalómanas… Mas desde há uns anos para cá que tento ser mais contida.
    Também não como passas, normalmente opto por gomas.
    Há dois anos tive apenas uma resolução (ou melhor acho que foi a única que ficou e que vou mantendo, falhei raramente!) Ver um espetáculo por mês, seja do que for… O importante é pôr-me em contacto com a árvore. É incrível vir energizada desses “encontros”.

    Beijos e votos de um 2019 menos sofrido, com mais alegrias e surpresas só das boas.

  • vania duarte

    Já fiz muitas resoluções de ano novo, demasiadas sempre com demasiada esperança que aquele seria o grande ano da minha mudança e 365 dias depois estava a fazê-las novamente. A forma como encaro as resoluções de ano novo acabou por mudar e se eu antigamente as encarava como parte fulcral para me dar um empurrão na mudança que eu queria – quase como se só contasse a partir dali – hoje prefiro vê-las como uma bussola por onde me guio, ou um notebook onde aponto objectivos para não me esquecer. Hoje em dia faço muito menos resoluções e confesso que mais realistas.
    Espero que o te 2019 seja muito mais feliz, tu mereces.

  • Marta Chan

    Estamos juntas, 2018 foi uma granda pancada na carola. Mas olha, levantamo-nos e cá estamos nós para entrar em 2019 cheias de esperança num ano mais calminho e cheio de alegria.
    Não faço resoluções há uns 2 anos e este ano só tenho uma: que corra tudo bem no meu negócio. Decidi deixar o perder peso ou melhor alimentação para objectivos para sempre e ir a este festival ou fazer aquela viagem para logo se vê 😀
    Começo a ficar mais interessada nos celtas, temos muito que aprender com eles!

  • Daniela Soares

    Eu gosto de fazer resoluções porque sinto que me mantêm focada e motivada, mas claro que concordo contigo quando dizes que não é só escrever, chegar a Janeiro e puff, a magia acontece e tudo muda. Acho que as resoluções devem ser específicas e não abstractas e irrealistas e devem servir como um lembrete durante o ano inteiro, podendo sempre estar sujeitas a remodelações. Quanto aos imprevistos, acontecem sempre! A vida é perita em nos dar a volta e isso tanto pode ser para o lado bom como para o lado mau. Há que aceitar que é assim, não podemos controlar tudo, e sobretudo devemos sempre acreditar que melhores dias virão (e fazer por isso claro!).

    Beijinhos

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