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Páginas Salteadas: Uma escuridão bonita e uma delícia angolana

Uma história curta, um sem fim de emoção. Foi assim que um escritor angolano conquistou o meu coração. E é assim, entre o manto escuro da noite e o cantar das cigarras, que deveríamos desfrutar tanto desta leitura como desta receita. Acompanham-me noutro Páginas Salteadas?

Antes de mais faço-vos um disclaimer honesto: esta receita pertence ao Páginas Salteadas de Julho, pelo que já vem um bocadinho atrasada. É da forma que este Agosto passa a ter duas receitas e dois livros. Há sempre um lado positivo em tudo.

O livro: Uma Escuridão Bonita, de Ondjaki

Numa das muitas noites em que falta a luz em Luanda, dois adolescentes ensaiam o seu primeiro beijo, mas este primeiro beijo precisa de muitos ensaios, de muitos momentos de aproximação e afastamento, de certezas e de inseguranças… o ambiente ajuda e o pretexto surge: estão os dois na varanda da avó Dezanove, às escuras, à espera do cinema bu: um cinema que só acontece (na p. 80) quando um carro passa com a velocidade e os faróis certos para projetar sombras/imagens nas paredes brancas das casas da rua escura.

(Wook)

Mais uma vez encontro-me aqui, em frente a esta página, após mais uma leitura no âmbito deste desafio gastroliterário (inventei agora o termo, gostam?) a sentir-me eternamente grata por fazer parte dele. Só assim teria lido alguns dos livros que constam hoje na minha lista de favoritos. Livros que eu, sozinha, nunca escolheria para ler.

Uma Escuridão Bonita” foi um desses livros. Com apenas cento e poucas páginas, precisou apenas de um punhado delas para me envolver. Creio que nunca me tinha cruzado com um livro tão pequeno que me tenha deixado a sensação de que todas as frases foram desenhadas com uma tamanha mestria, misticismo e beleza.

“As nossas vozes espalhavam barulhos nessa varanda onde primeiro só havia cheiros. Os barulhos esquecem-se rápido. Ainda bem que os cheiros ficam bem presos na nossa memória das recordações. Eu acho que quando formos crescidos vamos gostar de reencontrar estas coisas do nosso antigamente.
Num qualquer futuro, onde eu encontrar cheiro de abacate, ela vai estar um bocadinho lá.”

Ondjaki in “Uma Escuridão Bonita”

Incluído no Plano Nacional de Leitura, esta pequena maravilha venceu também o Prémio Nacional de Ilustração pelas lindíssimas ilustrações de António Jorge Gonçalves, que tão bem acompanham esta doce história em cada página.

A receita: Doce de Banana de Angola

Para fazer jus a este livro tão delicioso, só podia fazer algo igualmente doce. O bom do desafio Páginas Salteadas – não sei se alguma vez vos disse – é que, para além de nos desafiar a ler mais fora da nossa zona de conforto, nos motiva a pesquisar a cultura por detrás de cada livro, especialmente quando é localizado num país ou numa cidade, como é o caso de “Uma Escuridão Bonita”, cujo palco é Luanda.

Ingredientes:

  • 500 ml de água
  • 200 g de açúcar
  • 6 bananas cortadas em rodelas
  • 6 gemas
  • 6 claras em castelo
  • canela em pó para polvilhar

Preparação:

  1. Numa panela dissolve o açúcar em 500 ml de água e leva em fogo médio até obter uma calda em ponto de fio fraco (+/- 15 minutos);
  2. Acrescenta na calda as bananas cortadas em rodelas e cozinha até que as bananas se desfaçam (8 a 10 minutos);
  3. Opcional: passar com a varinha mágica para obter uma textura cremosa (eu fiz assim e adorei a textura!);
  4. Retira a panela do fogo, junta as gemas, mexe bem e volta novamente ao fogo médio até engrossar, mexendo sempre (+/- 8 minutos).
  5. Transfere o creme de banana para uma tigela e deixa arrefecer.
  6. Depois de frio incorpora delicadamente 6 claras em castelo;
  7. Divide este creme de banana em taças, polvilha canela em pó e serve gelado.

Vais ver: é uma delícia! 🙂

Mais uma vez, a minha ajudante não resistiu e quis entrar novamente no Páginas Salteadas. Já vem sendo hábito, não é verdade? Vê-a nesta receita de cocktail, nesta receita espanhola e nesta receita italiana.

Vamos espreitar as outras receitas inspiradas nesta história tão bonita?

Joana Clara, Às Cavalitas do Vento
Andreia Moita, Andreia Moita Blog
Vânia Duarte, Lolly Taste (não participa este mês, mas tem outras receitas de meses anteriores à vossa espera!)

“Quando somos crianças, o mundo fica bonito de repente. E simples. Parece um céu aberto com estrelas possíveis de serem apanhadas e guardadas numa gaiola sem paredes de fechar ninguém.”

Ondjaki in “Uma Escuridão Bonita”

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